quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O peso eleitoral do Norte Pioneiro em 1914

 

Ilustração gerada por IA

O quadro de eleitores publicado no Diário Oficial do Paraná em 15 de agosto de 1914 oferece um raro retrato quantitativo da participação política no Norte Pioneiro paranaense durante a Primeira República. Nele aparecem localidades centrais da região — Jacarezinho, Tomazina, Ribeirão Claro e Jaboticabal — permitindo observar diferenças expressivas de peso eleitoral e, consequentemente, de influência política. Jacarezinho se destaca de forma clara. Com 1.440 eleitores no total, o município apresentava um contingente eleitoral mais que o dobro de Tomazina e Ribeirão Claro, e quase cinco vezes superior ao de Jaboticabal. 

Esse dado confirma a posição de Jacarezinho como polo regional já consolidado em 1914, concentrando população, atividades comerciais, serviços públicos e, sobretudo, maior atenção do poder político estadual.

Tomazina e Ribeirão Claro aparecem em patamar intermediário, com números muito próximos entre si (684 e 737 eleitores, respectivamente). Essa proximidade sugere realidades demográficas e administrativas semelhantes, típicas de núcleos que exerciam funções locais importantes, mas ainda sem o peso político dos grandes centros regionais.

Jaboticabal (atual Carlópolis), por sua vez, surge com um contingente bem mais modesto: 297 eleitores. Esse número reforça o caráter ainda essencialmente rural e disperso da localidade, cuja organização política formal era limitada quando comparada aos municípios mais estruturados. Ainda assim, sua presença na tabela demonstra que Jaboticabal já estava integrado ao sistema eleitoral estadual, mesmo com reduzida capacidade de influência.

Diário oficial APP

Quando comparados entre si, os números revelam não apenas diferenças populacionais, mas sobretudo desigualdades de poder político efetivo. Em um sistema em que decisões locais e estaduais eram fortemente influenciadas pelo controle do eleitorado, localidades com maior número de eleitores tinham vantagem evidente na negociação de obras, cargos e investimentos públicos.

É bom destacar que o direito ao voto era extremamente restrito. Somente homens maiores de 21 anos, alfabetizados e considerados “cidadãos ativos” podiam votar. Estavam excluídos do processo eleitoral: mulheres, analfabetos, soldados rasos, religiosos sujeitos a voto de obediência, grande parte da população pobre e rural.

O voto era aberto, não secreto, o que facilitava pressões, coerções e fraudes. Nesse contexto floresceu o chamado coronelismo, sistema no qual líderes locais — grandes proprietários de terra ou figuras influentes — controlavam o eleitorado por meio de favores, dependência econômica e intimidação.

As Juntas de Recursos, como a que publicou este quadro, tinham papel central no alistamento, revisão e exclusão de eleitores. Isso tornava o processo eleitoral altamente manipulável, pois a simples exclusão de eleitores podia alterar drasticamente o resultado de uma eleição.

Os números oficiais do eleitorado paranaense em 1914 ajudam a desmontar uma ideia comum projetada a partir do presente: a de que as regiões do estado sempre foram muito desiguais em termos de peso político. Naquele momento, essas diferenças ainda eram relativamente pequenas — inclusive quando comparamos o Norte Pioneiro com áreas que hoje concentram grandes centros urbanos.

Essa comparação é reveladora. Enquanto hoje algumas regiões concentram dezenas ou centenas de milhares de eleitores, em 1914 diferenças de 500 ou 1.000 votantes já eram suficientes para definir hierarquias regionais. O poder político não estava ancorado em grandes massas eleitorais, mas em pequenos contingentes rigidamente controlados. 

A pergunta que se faz é: por que esta região cresceu menos do outras que na época tinham praticamente o mesmo eleitorado? Essa pergunta fica como sugestão para estudos futuros para quem o quiser explorar. 






quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

TEM ANO BOM?



Imagem gerada por IA
Se você foi criança em Joaquim Távora/PR nas décadas de 1980 e 1990, certamente se lembra de uma pergunta; “Tem Ano Bom?”. 

No dia 1º de janeiro, logo ao amanhecer, era comum ver grupos de crianças pelas ruas, batendo palmas ou gritando nas portas das casas: “Tem Ano Bom?”.

Ceia de réveillon? Fogos de artifício? Nada disso era prioridade para nós. As crianças queriam mesmo era dormir cedo, porque, no primeiro dia do ano, por volta das seis da manhã, já estavam nas ruas, animadas, percorrendo o bairro inteiro. A recompensa vinha em forma de balas, doces e pirulitos, oferecidos com alegria pelos moradores.

Eu, particularmente, não tinha muito o costume de sair pedindo Ano Bom. Lembro-me de ter participado apenas uma vez, quando me juntei a outras crianças. Voltei para casa com uma sacola cheia de doces. Como nunca fui muito fã de guloseimas, acabei doando quase tudo para meus irmãos, se a memória não me falha.

Recordo-me também de que meus pais mantinham viva essa tradição.  Compravam sacos de balas durante a semana e acordavam logo cedo, no dia 1º de janeiro, para distribuí-las às crianças. Ficavam à porta de casa, esperando os pequenos que passavam, fazendo a pergunta clássica "Tem ano bom?" e a resposta era Tem! Seguida de um sorriso, da entrega de um punhado de doces às crianças e da troca de desejos de Feliz Ano Novo e Deus te abençoe.

Durante muitos anos, essa tradição se manteve viva no município de Joaquim Távora. É uma tradição simples e profundamente humana. Não se sabe ao certo quem a introduziu na comunidade. Ela não veio de decreto, nem de livro, mas nasceu da convivência cotidiana, da repetição espontânea e da boa vontade das pessoas.

Um gesto simples e de baixo valor material, mas carrega um significado profundo: começar o ano partilhando, acolhendo e reconhecendo a alegria das crianças. Sempre foi uma forma silenciosa de ensinar valores como generosidade, respeito e convivência comunitária.

Com o passar do tempo, porém, essa prática foi se tornando menos frequente. Ainda há crianças que saem pedindo Ano Bom, mas já não encontram tantas portas abertas. Muitos deixaram de levantar cedo; outros simplesmente se esqueceram do costume. Vive-se hoje uma rotina mais apressada e, infelizmente, mais individualista, em que pequenos gestos comunitários acabam ficando em segundo plano.

Ainda, hoje, em 1º de janeiro de 2026, passaram mais de vinte crianças pela porta de minha casa pedindo Ano Bom. Confesso que fiquei desapontado comigo mesmo, pois havia me esquecido de comprar doces. Felizmente, minha mão havia comprado algumas balas e pirulitos no dia anterior, que serviram para não deixar a tradição passar em branco.

Refletir sobre essa mudança não é apenas um exercício de nostalgia, mas um convite à consciência. Tradições como essa não existem por acaso: elas criam vínculos, fortalecem a comunidade e fazem da infância um tempo de alegria compartilhada. Resgatar o costume de oferecer doces no Ano-Novo não é apenas olhar para o passado, mas reafirmar um compromisso com a convivência, a generosidade e o bem-estar coletivo.

Talvez seja hora de lembrar que o Ano-Novo pode começar de forma mais simples — e muito mais bonita: com crianças sorrindo pelas ruas, portas abertas e a certeza de que a alegria, quando partilhada, se multiplica.

Além disso, poderia se pensar na preservação dessa prática como parte do patrimônio cultural imaterial do município de Joaquim Távora. 

O “Tem Ano Bom”? não é apenas uma brincadeira infantil, mas uma expressão viva da memória coletiva, dos valores de solidariedade e do espírito comunitário que marcaram gerações. Resgatar, manter viva e fortalecer essa tradição significa reconhecer sua importância histórica e cultural, incentivando sua continuidade entre as novas gerações. Ao valorizá-la como patrimônio imaterial, o município reafirma sua identidade, honra sua história cotidiana e transforma um gesto simples em símbolo duradouro de pertencimento e convivência.

Imagem gerada por IA