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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O DOMO DE QUATIGUÁ: uma singularidade geológica no Norte Pioneiro do Paraná


Esquema conceitual do Domo (Alto Estrutural) de Quatiguá.
Ilustração didática mostrando o soerguimento estrutural controlado por 
falhas geológicas profundas, que influenciam a disposição das camadas sedimentares
 e o relevo atual do Norte Pioneiro do Paraná. A figura não está em escala 
e representa os processos geológicos de forma simplificada.

O chamado Domo de Quatiguá, mais corretamente denominado na literatura científica como Alto Estrutural de Quatiguá, é uma das estruturas geológicas mais interessantes e menos conhecidas do Norte Pioneiro do Paraná. Diferente de montanhas ou morros evidentes, trata-se de uma estrutura tectônica profunda, cuja importância não está apenas na paisagem, mas na forma como revela a história geológica da região.

Do ponto de vista científico, o Alto de Quatiguá é uma estrutura elevada do embasamento da Bacia do Paraná, formada e retrabalhada por reativações de antigas falhas geológicas. Essas falhas, herdadas do embasamento cristalino, voltaram a se movimentar em diferentes momentos da história geológica, deformando as camadas sedimentares que hoje afloram na superfície.

Onde ele se localiza e qual é a sua dimensão

Os estudos indicam que o Alto Estrutural de Quatiguá se insere no Nordeste do Paraná, em uma faixa estrutural que envolve principalmente os municípios de Quatiguá, Joaquim Távora e Siqueira Campos, estendendo sua influência geológica também para áreas do entorno do Norte Pioneiro.

Embora não exista um “limite visível” na paisagem — como acontece com serras ou chapadas —, a literatura sugere que o alto possui dezenas de quilômetros de extensão, configurando um bloco elevado regional, delimitado por grandes falhas. Em termos práticos, isso significa que ele é grande demais para ser percebido em um único afloramento, mas pequeno o suficiente para ter forte impacto na organização do relevo local.

Falhas geológicas e o formato peculiar do domo

Um dos pontos mais interessantes revelados pelos estudos é que o chamado “domo” não é um domo clássico, no sentido geométrico simples de uma cúpula perfeita. O que a pesquisa demonstra é algo mais sutil e mais interessante.

O Alto de Quatiguá é controlado principalmente por falhas de direção nordeste–sudoeste (NE), que funcionam como limites estruturais do bloco elevado. Entre elas, destacam-se falhas conhecidas regionalmente como as de Quatiguá, Joaquim Távora e Siqueira Campos. Essas falhas apresentam evidências de movimentos horizontais (transcorrentes) e verticais ao longo do tempo geológico.

Posteriormente, o alto foi seccionado por falhas de direção noroeste–sudeste (NW), associadas a fases tectônicas mais jovens e, possivelmente, ao magmatismo relacionado aos derrames basálticos da Formação Serra Geral. Essa combinação de falhas NE e NW compartimentou o bloco, inclinou camadas e criou uma geometria que, quando vista em mapas ou em afloramentos, gera a aparência dômica.

Em outras palavras: o “domo” é, na verdade, o resultado da interação entre um alto estrutural alongado e cortes tectônicos posteriores, e não uma simples elevação isolada.

Por que o Domo de Quatiguá é importante

A importância do Alto Estrutural de Quatiguá vai muito além do interesse local. Ele é frequentemente citado na literatura como um exemplo didático de reativação de paleolineamentos dentro de uma bacia intracratônica, como a Bacia do Paraná.

Isso é relevante porque mostra que, mesmo em áreas consideradas tectonicamente “estáveis”, antigas estruturas do embasamento podem ser reativadas e exercer forte controle sobre:

  • a disposição das camadas sedimentares,
  • a localização de falhas,
  • o desenvolvimento do relevo,
  • e até a circulação de fluidos em subsuperfície.

Por esse motivo, o Alto de Quatiguá também é citado em estudos que discutem modelos estruturais aplicáveis à prospecção geológica, funcionando como um “laboratório natural” para entender como estruturas profundas influenciam a geologia superficial.

Reflexos no relevo e na paisagem atual

Embora o domo em si seja uma estrutura geológica, seus efeitos podem ser percebidos indiretamente na paisagem. A compartimentação tectônica influencia:

  • a orientação de vales e drenagens,
  • a presença de relevo mais dissecado em determinados setores,
  • a exposição diferenciada de camadas sedimentares.

Feições como vales encaixados, escarpas rochosas e alinhamentos topográficos — como os observados na região do Vale da Pirambeira — não podem ser explicados apenas pela erosão superficial, mas fazem parte de um controle estrutural regional, no qual o Alto de Quatiguá desempenha papel central.

Uma singularidade pouco conhecida

Apesar de sua relevância científica, o Domo (Alto Estrutural) de Quatiguá ainda é pouco conhecido fora do meio acadêmico. Ele não é um “cartão-postal” óbvio, mas sim uma estrutura que exige leitura geológica para ser compreendida.

Justamente por isso, ele representa um patrimônio geológico silencioso do Norte Pioneiro do Paraná: discreto na paisagem cotidiana, mas fundamental para entender a história profunda do território.

Vale da Pirambeira, Joaquim Távora (PR).
Vale encaixado com escarpas rochosas e leito
 pedregoso, onde o relevo é fortemente
controlado por estruturas geológicas
profundas associadas ao Alto Estrutural
 (Domo) de Quatiguá.


Mini-dicionário geológico: entendendo o Domo de Quatiguá

Alto estrutural

Região da crosta terrestre que foi elevada em relação às áreas vizinhas por movimentos tectônicos. Não é, necessariamente, um morro visível, mas um bloco elevado em profundidade, que influencia a disposição das rochas e do relevo.

Domo

Estrutura geológica em que as camadas rochosas apresentam tendência a mergulhar para fora de um ponto central, formando algo semelhante a uma cúpula. No caso de Quatiguá, o termo é usado de forma descritiva, pois a estrutura real é mais complexa e controlada por falhas.

 Falha geológica

Fratura na crosta terrestre ao longo da qual ocorreu movimento relativo das rochas. Pode gerar deslocamentos verticais, horizontais ou ambos, controlando a formação de vales, escarpas e a orientação do relevo.

 Falha transcorrente

Tipo de falha em que o deslocamento principal é horizontal, com um bloco deslizando lateralmente em relação ao outro. Muito comum em estruturas antigas reativadas, como no Alto de Quatiguá.

 Paleolineamento

Antigas zonas de fraqueza da crosta terrestre, geralmente herdadas do embasamento cristalino. Mesmo muito antigas, podem ser reativadas e controlar a geologia atual.

 Reativação tectônica

Processo pelo qual uma falha ou estrutura antiga volta a se movimentar devido a novos esforços tectônicos. É um dos conceitos-chave para entender o Domo de Quatiguá.

 Bacia do Paraná

Grande bacia sedimentar intracratônica que ocupa parte do sul e sudeste do Brasil. Formou-se ao longo de centenas de milhões de anos com a deposição de sedimentos e episódios vulcânicos, como os derrames basálticos da Serra Geral.

 Embasamento cristalino

Conjunto de rochas muito antigas (ígneas e metamórficas) que servem de base para as rochas sedimentares da Bacia do Paraná. As falhas do Alto de Quatiguá têm origem nesse embasamento.

 Camadas sedimentares

Rochas formadas pela deposição sucessiva de sedimentos (areia, lama, etc.), geralmente organizadas em estratos horizontais, que podem ser inclinados ou deformados por movimentos tectônicos.

 Magmatismo Serra Geral

Evento geológico ocorrido há cerca de 135 milhões de anos, responsável por enormes derrames de lava basáltica no sul do Brasil. Esse evento contribuiu para reativações tectônicas na região.

 Controle estrutural do relevo

Expressão usada quando a forma da paisagem (vales, escarpas, alinhamentos) é fortemente influenciada por falhas e estruturas geológicas, e não apenas pela erosão superficial.

 Bacia intracratônica

Bacia sedimentar formada no interior de uma placa continental, teoricamente estável, mas que ainda assim pode sofrer reativações tectônicas, como ocorre na Bacia do Paraná.

 

Referências para aprofundamento

Para quem deseja ir além do texto de divulgação, os principais trabalhos científicos que embasam essa interpretação são:

  • Rostirolla, S. P.; Assine, M. L.; Fernandes, L. A.; Artur, P. C. (2000). Reativação de paleolineamentos durante a evolução da Bacia do Paraná: o exemplo do Alto Estrutural de Quatiguá. Revista Brasileira de Geociências.
    Trabalho de referência sobre o tema, detalha falhas, cinemática e evolução tectônica do alto.
  • Vesely, F. F. (2006). Tese de Doutorado – UFPR.
    Discute estruturas regionais da Bacia do Paraná e menciona o domo/alto de Quatiguá no contexto da evolução estratigráfica.
  • Licht, O. A. B. (tese, UFPR).
    Aborda anomalias geofísicas e estruturas circulares no Norte Pioneiro do Paraná, situando o Alto de Quatiguá no contexto regional.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Receita tradicional contra a malária - Um relato da medicina popular do Norte Pioneiro do Paraná


Foto: Gustavo Giacon, Viveiro Ciprest





A medicina popular sempre fez parte da história das comunidades brasileiras. Antes do acesso regular a médicos, exames e medicamentos industrializados, muitas pessoas recorreram ao conhecimento empírico, transmitido oralmente, como forma de enfrentar doenças graves. Uma dessas histórias envolve uma receita tradicional à base de jurubeba e pinga, lembrada na região de Joaquim Távora e Jacarezinho, no Norte do Paraná.

O contexto histórico do relato

Segundo a tradição oral, por volta da década de 1960, Seo Moacir Ramos, morador de Joaquim Távora, teria adoecido com malária. Naquele período, o atendimento médico local era extremamente limitado, e ele foi encaminhado para Jacarezinho em busca de ajuda.

Enquanto aguardava atendimento em um posto de saúde de Jacarezinho, apresentando fortes tremores e febres típicas da doença, foi abordado por um senhor da cidade que perguntou o que estava acontecendo. Ao ouvir que se tratava de malária, esse homem lhe ensinou uma receita caseira feita com jurubeba. Seu Moacir, que até então nem conhecia a planta, decidiu procurar um pé de jurubeba, preparar a mistura conforme orientado e utilizá-la.

Já na primeira dose do remédio, segundo o próprio relato, os sintomas do tremor desapareceram. Meses depois, quando houve uma campanha oficial de combate à malária na região, Seu Moacir compareceu novamente para exames em Jacarezinho. O resultado não indicou presença da doença, o que gerou estranhamento por parte de um atendente, já que não havia registro positivo de malária em seu sangue. Ele então explicou que havia adoecido anteriormente e que buscava apenas confirmar se realmente estava curado. A isso, o funcionário do posto, segundo seu Moacir fez anotações a respeito.

Esse episódio é um relato marcante da medicina popular regional e revela como as pessoas buscavam alternativas em um tempo de poucos recursos medicinais.

A receita tradicional (registro histórico)

⚠️ Importante: o que segue é um registro cultural e histórico, não uma recomendação de uso.

Segundo o relato tradicional:

  • Utilizam-se 19 sementes verdes de jurubeba, divididas ao meio;

  • As sementes são colocadas em 1 litro de pinga;

  • Retira-se um pequeno pedaço da raiz do próprio pé de jurubeba;

  • Esse pedaço de raiz é dividido em 15 pequenos fragmentos;

  • As raízes devem ser retiradas e levemente secas, apenas para eliminar a umidade, antes de serem colocadas na garrafa;

  • A mistura permanece em infusão por três dias;

  • O malarento devia tomar durante o tratamento 3 litros da mistura, sendo que, à medida que o líquido diminuía, completava-se novamente com pinga;

  • O modo de uso relatado era a ingestão de um pequeno cálice (ou uma dose) pela manhã e outro à tarde.

Reitera-se: trata-se apenas da descrição fiel de uma prática tradicional, conforme transmitida oralmente.

O que é a malária?

A malária é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos pela picada do mosquito Anopheles infectado. Os sintomas mais comuns incluem:

  • Febre alta recorrente

  • Calafrios intensos

  • Tremores

  • Suor excessivo

  • Dor de cabeça

  • Fraqueza extrema

Sem tratamento adequado, a malária pode evoluir para formas graves e até levar à morte. Atualmente, a doença possui diagnóstico preciso por exame de sangue e tratamento padronizado, disponível pelo sistema de saúde.

Jurubeba e o saber popular

A jurubeba é uma planta bastante conhecida na cultura popular brasileira, tradicionalmente associada a efeitos digestivos, hepáticos e estimulantes. No entanto, não há comprovação científica consolidada de que sementes ou raízes de jurubeba tenham eficácia comprovada contra a malária.

Ainda assim, relatos como este despertam uma reflexão legítima: será que determinadas plantas, combinações ou processos tradicionais poderiam conter substâncias com algum efeito antiparasitário? Essa é uma questão que deve ser respondida por meio de estudos científicos sérios, com análise laboratorial, testes controlados e avaliação clínica.

Considerações finais e nota de responsabilidade

Este texto não recomenda, não incentiva e não orienta o uso desta receita para tratamento da malária ou de qualquer outra doença.

O objetivo é preservar a memória e a tradição oral, registrando um conhecimento popular surgido em uma época em que o acesso à medicina era precário em muitas regiões do interior do Brasil.

📌 Nota importante:
O uso de qualquer medicamento, substância natural ou preparo caseiro deve ser feito com extremo cuidado. Relatos tradicionais não substituem diagnóstico médico, exames laboratoriais nem tratamentos reconhecidos pela ciência.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O peso eleitoral do Norte Pioneiro em 1914

 

Ilustração gerada por IA

O quadro de eleitores publicado no Diário Oficial do Paraná em 15 de agosto de 1914 oferece um raro retrato quantitativo da participação política no Norte Pioneiro paranaense durante a Primeira República. Nele aparecem localidades centrais da região — Jacarezinho, Tomazina, Ribeirão Claro e Jaboticabal — permitindo observar diferenças expressivas de peso eleitoral e, consequentemente, de influência política. Jacarezinho se destaca de forma clara. Com 1.440 eleitores no total, o município apresentava um contingente eleitoral mais que o dobro de Tomazina e Ribeirão Claro, e quase cinco vezes superior ao de Jaboticabal. 

Esse dado confirma a posição de Jacarezinho como polo regional já consolidado em 1914, concentrando população, atividades comerciais, serviços públicos e, sobretudo, maior atenção do poder político estadual.

Tomazina e Ribeirão Claro aparecem em patamar intermediário, com números muito próximos entre si (684 e 737 eleitores, respectivamente). Essa proximidade sugere realidades demográficas e administrativas semelhantes, típicas de núcleos que exerciam funções locais importantes, mas ainda sem o peso político dos grandes centros regionais.

Jaboticabal (atual Carlópolis), por sua vez, surge com um contingente bem mais modesto: 297 eleitores. Esse número reforça o caráter ainda essencialmente rural e disperso da localidade, cuja organização política formal era limitada quando comparada aos municípios mais estruturados. Ainda assim, sua presença na tabela demonstra que Jaboticabal já estava integrado ao sistema eleitoral estadual, mesmo com reduzida capacidade de influência.

Diário oficial APP

Quando comparados entre si, os números revelam não apenas diferenças populacionais, mas sobretudo desigualdades de poder político efetivo. Em um sistema em que decisões locais e estaduais eram fortemente influenciadas pelo controle do eleitorado, localidades com maior número de eleitores tinham vantagem evidente na negociação de obras, cargos e investimentos públicos.

É bom destacar que o direito ao voto era extremamente restrito. Somente homens maiores de 21 anos, alfabetizados e considerados “cidadãos ativos” podiam votar. Estavam excluídos do processo eleitoral: mulheres, analfabetos, soldados rasos, religiosos sujeitos a voto de obediência, grande parte da população pobre e rural.

O voto era aberto, não secreto, o que facilitava pressões, coerções e fraudes. Nesse contexto floresceu o chamado coronelismo, sistema no qual líderes locais — grandes proprietários de terra ou figuras influentes — controlavam o eleitorado por meio de favores, dependência econômica e intimidação.

As Juntas de Recursos, como a que publicou este quadro, tinham papel central no alistamento, revisão e exclusão de eleitores. Isso tornava o processo eleitoral altamente manipulável, pois a simples exclusão de eleitores podia alterar drasticamente o resultado de uma eleição.

Os números oficiais do eleitorado paranaense em 1914 ajudam a desmontar uma ideia comum projetada a partir do presente: a de que as regiões do estado sempre foram muito desiguais em termos de peso político. Naquele momento, essas diferenças ainda eram relativamente pequenas — inclusive quando comparamos o Norte Pioneiro com áreas que hoje concentram grandes centros urbanos.

Essa comparação é reveladora. Enquanto hoje algumas regiões concentram dezenas ou centenas de milhares de eleitores, em 1914 diferenças de 500 ou 1.000 votantes já eram suficientes para definir hierarquias regionais. O poder político não estava ancorado em grandes massas eleitorais, mas em pequenos contingentes rigidamente controlados. 

A pergunta que se faz é: por que esta região cresceu menos do outras que na época tinham praticamente o mesmo eleitorado? Essa pergunta fica como sugestão para estudos futuros para quem o quiser explorar. 






sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O HOMEM QUE SE RECUSOU SER PREFEITO DE SANTO ANTÔNIO DA PLATINA


Imagem gerada por IA
A história política de Santo Antônio da Platina é marcada por episódios que revelam não apenas disputas de poder, mas também as ambiguidades próprias dos períodos de ruptura institucional. Um desses episódios envolve Joaquim Cardoso da Silveira, personagem recorrente da política local nas primeiras décadas do século XX, cujo nome voltou à cena em meio ao conturbado cenário posterior ao Golpe de 1930.

Eleito prefeito em 21 de setembro de 1928, Joaquim Cardoso da Silveira governou o município até que, com a eclosão do Golpe de 1930 e a instauração do governo provisório no país, perde o mandato e é substituído por prefeitos nomeados pelo novo regime. (Câmara de Santo Antônio)

A partir de então, o Brasil viveu sob um regime em que as câmaras municipais foram dissolvidas, e prefeitos passaram a ser escolhidos por meio de nomeações feitas por interventores ou governos estaduais, sem a participação direta da população. Mesmo sendo identificado com o grupo político anterior ao golpe, Joaquim Cardoso foi nomeado novamente em 11 de novembro de 1935 como prefeito de Santo Antônio da Platina pelo interventor Manoel Ribas — uma nomeação que, por si só, já refletia a suspensão das práticas eleitorais e a concentração de poder nas mãos de instâncias superiores. (Câmara de Santo Antônio)

O que se seguiu foi um gesto político que seria lembrado de formas diversas ao longo do tempo: Joaquim Cardoso da Silveira recusou-se a assumir o mandato, alegando discordância com o caráter discricionário e autoritário do regime vigente, que retirava da população o direito de escolher seus representantes.

Esse episódio foi interpretado de maneiras distintas por diferentes grupos políticos da época. Partidários do novo regime frequentemente o criticaram, enxergando sua postura como resistente a uma nova ordem que buscava consolidar-se de forma centralizada. Por outro lado, outros observadores defendiam que sua recusa expressava uma insatisfação com a perda de processos democráticos, embora reconhecessem que a própria política da época estivesse imersa em tensões e ambiguidade.

Biografia e trajetória política

Joaquim Cardoso da Silveira foi uma figura presente nas articulações políticas de Santo Antônio da Platina nas décadas de 1920 e 1930, período em que o município ainda consolidava suas instituições. Foi prefeito municipal em diferentes momentos, tanto por nomeação quanto por eleição, participando ativamente da vida administrativa local antes e depois do Golpe de 1930. (Câmara de Santo Antônio)

Após seu mandato eletivo ter sido interrompido com o golpe, ele voltou à cena política local e, mais tarde, ampliou sua atuação para o plano estadual, exercendo o cargo de deputado estadual, no qual se envolveu nas demandas e debates relacionados ao desenvolvimento do Norte do Paraná.

No âmbito municipal, Joaquim Cardoso também teve participação na Câmara de Santo Antônio da Platina, onde atuou ao lado de Miguel Dias, a quem faz menção que era um grande líder político do Norte do Paraná. Nessa convivência política, foram comuns as articulações em torno de interesses regionais e as disputas próprias do contexto político da época, marcado por alianças, divergências e rearranjos de poder.

Narrativas, críticas e método histórico

A recusa de Joaquim Cardoso da Silveira em assumir a prefeitura em 1935 não pode ser vista de forma isolada. Ela faz parte de um debate maior sobre o que, afinal, foi o movimento de 1930. Aquilo que muitos chamaram de “Revolução”, para outros, na prática, acabou sendo um governo autoritário, que interrompeu a ordem democrática da época, fechou câmaras municipais e substituiu eleições por nomeações.

Por isso, a atitude de Joaquim Cardoso pode gerar leituras diferentes, dependendo do ponto de vista adotado. Para alguns, sua recusa pode ser entendida como uma forma de não compactuar com a centralização do poder e com a perda da autonomia dos municípios. Para outros, especialmente entre os apoiadores do novo regime, o gesto pode ser visto com desconfiança, como cálculo político ou simples resistência às mudanças impostas naquele momento.

A grande questão — e talvez a mais difícil de responder — é saber se essa interrupção da ordem democrática foi, no fim das contas, melhor ou pior para o Norte Pioneiro do Paraná e para a região. Essa não é uma resposta que se encontra em frases prontas ou versões simplificadas da história. Ela exige pesquisa, comparação de fontes e estudos sérios, feitos com método e cuidado.

Isso porque fatos históricos não se explicam sozinhos. Para entender episódios como esse, é preciso olhar documentos oficiais, jornais da época, atas da Câmara, correspondências e outros registros, sempre levando em conta o contexto, as disputas políticas e os interesses em jogo.

Mais do que um caso curioso do passado, a recusa de Joaquim Cardoso ajuda a mostrar como a política local do Norte do Paraná foi marcada por contradições, conflitos e escolhas difíceis em tempos de mudança. E também lembra que a história é feita de múltiplas versões — e que cabe ao pesquisador, e ao leitor atento, ir além da narrativa mais fácil.

Veja palavras do próprio Silveira: Reportagem o Dia


V

Referências

CÂMARA MUNICIPAL DE SANTO ANTÔNIO DA PLATINA. Relação de ex-prefeitos de Santo Antônio da Platina. Santo Antônio da Platina, PR. Disponível em: https://www.santoantoniodaplatina.pr.leg.br/institucional/utilidade-publica/relacao-de-ex-prefeitos. Acesso em: 26 dez. 2025.

O Dia (Curitiba, PR). Perfil de Miguel Dias. O Dia, Curitiba, 19 mar. 1953. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=092932&Pesq=%22Miguel%20Dias%22&id=37967009202212&pagfis=77640. Acesso em: 29 dez. 2025.

sábado, 3 de maio de 2025

O INDÍGENA DE 160 ANOS

 

Imagem IA
Um relato impressionante publicado pelo Correio Paulistano em 1903

Em 1903, o jornal Correio Paulistano publicou um relato surpreendente: um indígena, então residente na Fazenda Barra Grande, afirmava ter 160 anos de idade. O mais impressionante? Ele ainda mantinha suas faculdades mentais intactas e caminhava, diariamente, cerca de oito léguas a pé — o equivalente a quase 40 km.

O indígena era considerado um macróbio — termo usado para designar pessoas com longevidade extraordinária. O relato foi enviado ao jornal pelo senhor Manoel Rodrigues do Prado, de Santo Antônio da Platina, que ouviu a história diretamente do protagonista.

Na época, Santo Antônio da Platina ainda era distrito de Jacarezinho, e a Fazenda Barra Grande ficava onde hoje estão localizados os municípios de Guapirama e Joaquim Távora. É provável que o indígena residisse em uma comunidade indígena que, situada entre os rios Barra Grande e o Rio das Cinzas.

É natural que muitos duvidem da veracidade dos 160 anos alegados. Ainda assim, o relato documentado pelo jornal está disponível para quem quiser conferir na íntegra. Se a idade for ou não verdadeira, o que importa é o valor histórico do testemunho — um registro de que, já em 1903, havia presença humana organizada (inclusive indígena) na região que hoje chamamos de Norte Pioneiro do Paraná.

O relato também escancara uma realidade muitas vezes negligenciada: a convivência, forçada ou não, entre indígenas e colonizadores. A posse da terra raramente foi pacífica ao longo da história. Povos sempre tomaram territórios uns dos outros, e essa tensão permanece até hoje, ainda que com outras roupagens.

Muitos afirmam ser "donos" da terra, mas a verdade é que ninguém a possui de fato. Somos apenas ocupantes temporários. A terra permanece; os homens passam. E a história do velho indígena é um lembrete disso.

O indígena relatou que, aos 15 anos, vivia no sertão de Itapetininga (SP). Foi quando conheceu Frei Pacífico, um missionário que catequizava — e também escravizava — índios. Batizado com o nome de Antônio, foi levado à casa do frei, onde viveu como escravo por muitos anos.

Em 1758, com a promulgação do decreto do Marquês de Pombal que libertava os indígenas escravizados, ele partiu para Minas Gerais, convidado por índios já "civilizados". Visitou o Rio de Janeiro e dizia ter presenciado a execução de Tiradentes. Contava, com temor, que presenciou "coisas que tinha medo de relatar".

Cansado da violência em Minas — onde "se enforcava muita gente" — mudou-se para São João do Rio Verde. Por volto de 1889, chegou ao Paraná, onde vivia de forma simples, alimentando-se principalmente de peixes.

Este relato não é apenas curioso — ele é valioso. Mostra que os povos indígenas não eram "coisa do passado" já extinta no século XX. Eles estavam presentes, resistindo, vivendo, contando histórias. A de Antônio (nome de batismo dado por Frei Pacífico) é uma dessas histórias que merecem ser lembradas.

O recorte do jornal Correio Paulistano está disponível para os curiosos e pesquisadores. Vale conferir.

Abaixo: segue o recorte original do jornal:








sexta-feira, 22 de novembro de 2024

TIÃO ABATIÁ

 

Fonte: arquivo Gazeta do Povo

Tião Abatiá foi um abatiaense, morador do Norte Pioneiro do Paraná, que ficou famoso como jogador de futebol, especialmente por sua passagem no Coritiba, clube que o consagrou como um dos maiores ídolos da história. Seu nome ganhou destaque nos campos nos anos 1970, principalmente após uma vitória histórica contra o Santos de Pelé em 1971. Essa partida, onde Abatiá brilhou e foi reconhecido até pelo próprio Rei do Futebol, marcou o ápice da sua carreira e o catapultou para o estrelato.

Tião nasceu em 20 de janeiro de 1945 em Abatiá, iniciou sua carreira futebolística no Cambaraense, de Cambará, cidade vizinha. Em 1966, ele se transferiu para o União Bandeirante, onde foi vice-campeão paranaense em 1966, 1969 e 1971, sendo também o artilheiro do estadual nesse último ano. No mesmo ano, Tião se mudou para o São Paulo, mas disputou apenas uma partida pelo clube paulista que não teve dinheiro para pagar o passe.

Em 1971, Tião foi contratado pelo Coritiba, juntamente com Paquito, seu companheiro de ataque no União Bandeirante. Eles fizeram sua estreia no time alviverde da capital no domingo, 15 de agosto. No mesmo ano, Tião conquistou a Bola de Prata da revista Placar como o melhor centroavante do Campeonato Brasileiro. Ele permaneceu no Coritiba até 1975, quando foi emprestado à Portuguesa.

No ano seguinte, em 1976, o atacante retornou ao futebol paranaense, desta vez jogando pelo Colorado. No Campeonato Estadual daquele ano, Abatiá marcou 24 gols, superando por um gol seu ex-companheiro de ataque, Paquito, que foi o vice artilheiro pelo Grêmio Maringá.

Fonte: Coxanautas

Provavelmente, o personagem "Tião Abaterá", criado para a revista Zé Carioca em 1972, foi inspirado no nome de Tião Abatiá, devido à semelhança fonética entre os dois. O personagem, que aparece na história "Futebol não tem lógica", é retratado como um craque temido nos campos de futebol, refletindo a popularidade e a habilidade de Abatiá, mas agora no universo dos quadrinhos. Embora não tenha havido uma confirmação oficial dos roteiristas sobre essa inspiração, a coincidência é evidente, e muitos fãs reconhecem a homenagem feita a Abatiá, cuja fama certamente influenciou a criação do personagem.

Outra curiosidade marcante é que em 27/10/1971 a torcida do Coxa, gritava “Tião Abatiá é melhor que Pelé!” por conta da vitória obtida pelo seu gol contra o Santos.

Faleceu em 16/08/ 2016 aos 71 anos, e residia em Ribeirão do Pinhal, Norte Pioneiro do Paraná.

Coritiba, no início dos anos 70. Em pé, da esquerda para a direita: Pescuma, Hermes, Hidalgo, Célio, Cláudio Marques e Nilo. Agachados: Leocádio, jogador não identificado, Hélio Pires, Tião Abatiá e Rinaldo. Fonte: 3° Tempo


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segunda-feira, 8 de abril de 2024

Santa Tita - Primeira Santa da Igreja Ortodoxa Ucraniana da América Latina

Ícone Santa Tita e as 8 Crianças

A professora Maria Aparecida Beruski, conhecida entre os Ucranianos Ortodoxos, como a "mártir de Joaquim Távora", faleceu em 1986 junto com oito crianças na escola rural do Bairro Colônia São Miguel, município de Joaquim Távora, Estado do Paraná. 

É um história de dor e sofrimento, mas também de heroísmo, coragem, de fé e de exemplo de vida.

Segundo Jesus, não há exemplo maior de amor do que doar a vida por seus irmãos.

Maria Aparecida consumou essa palavra na prática, uma vez que ao invés de tentar em primeiro lugar se salvar. Começou a retirar as crianças que pode pela janela e quando não deu mais para salvá-las, morreu abraçada com as mesmas em um ato de amor incondicional e de proteção para com seus alunos.

Em 4 de abril de 1986, na Colônia São Miguel, em Joaquim Távora, enquanto lecionava, o botijão de gás que Maria utilizava em um fogareiro para preparar a sopa para o lanche de seus treze alunos, posicionado na única porta da escola, transformou-se acidentalmente em um lança-chamas, que acabou por incendiar a sala da escola, a qual era feita de madeira. No entanto, a professora, com o fim de salvar seus alunos, se recusou a deixar o local, conseguindo assim passar as cinco crianças menores pela janela, mas as outras oito não. Maria Beruski morreu carbonizada junto dos últimos oito alunos e entre os escombros da sala foi encontrado seu corpo, abraçada com as crianças.[4] Além da professora, as vítimas fatais eram: Tereza Luiz Rosa, de 13 anos, Carlos Luiz Rosa, de 11, Amaury M. de Queiroz, 9, Lucélia Glomba, de 8 anos, Lucimeire Borandelik, 8, Salomão Bachtich, 8, Laert Luiz Rosa, 7, e Alexandra Marim[5], de 7 anos.[6] Como o desastre teve grande impacto na região, os moradores locais começaram a orar pelas vítimas e pedir sua interseção, em culto privado, criando, dessa forma, um vínculo religioso de devoção e santidade popular, sobretudo em torno de Maria Aparecida Beruski. (Wikipédia 2023)

Maria Aparecida Beruski (Santa Tita)
O relato a seguir é interessante:

"A escola era como se fosse um salão. De repente, a botija explodiu e as chamas se espalharam muito rapidamente. O calor era insuportável. Eu era um garoto muito ligeiro e consegui sair por uma pequena janela. Já do lado de fora, puxei outros colegas. Mas, infelizmente, não foram todos que conseguiram fugir'', relembra o agricultor Celso Leonel Carvalho. Na época, ele tinha 12 anos e foi a primeira das cinco crianças que conseguiram se salvar.  (Blog Universo Ucraniano)

''Ela tinha 27 anos. Era uma pessoa muito bondosa. Amava seus alunos. Já faz algum tempo, mas para nós parece que a tragédia aconteceu ontem. Minha sobrinha deu a vida por seus alunos. Vendo o prédio pegar fogo, ela preferiu ficar com as crianças, ajudando a salvar algumas, do que fugir das chamas. É uma mártir, mas agora o nosso bispo quer canonizá-la'', comenta Maria Miskalo. (Blog Universo Ucraniano)


Túmulo de Maria Beruski e seus alunos.

Início da glorificação

Após sua morte, Maria passou a ser localmente venerada como uma mártir, tanto por seu extremo exemplo de amor como pelos milagres que foram relatados em seu túmulo, em Joaquim Távora. Em 2007, Dom Jeremias Ferens relatou que sua diocese havia reunido diversos relatos de milagres em uma hagiografia, entre eles os casos de uma pessoa curada de alergia e de uma criança que tomou querosene por engano e escapou da morte, e planejava encaminhar o processo de sua glorificação junto com o das oito crianças que morreram com ela, o que faria dela a primeira santa ortodoxa latino-americana formalmente glorificada, a ser comemorada no dia 4 de abril. (Wikipédia 2023)

Pe. em visita ao sepulcro
Assim sendo, levando em consideração a devoção do povo, a Igreja Ortodoxa deu início ao seu processo canônico internamente em 2005 e, em 2007, foi concluído um dossiê de treze páginas, escrito pelo seminarista Fabio Lins, da Igreja Ortodoxa Ucraniana, e este documento enviado para o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla para o início do processo de canonização, de modo que a resposta final era prevista para demorar de um a três anos.[4][7] O dossiê contém informações coletadas entre 11 e 14 de outubro de 2005, em Joaquim Távora, sendo estas relatos de testemunhas que falam sobre a vida de Maria Aparecida, preces e anotações da mesma, além de serem apresentados nele as interseções e milagres da possível santa.[7]

O bispo local da Igreja Ortodoxa Ucraniana da América do Sul, Dom Jeremias Ferens, declarou, em sua entrevista para a Revista Mundo e Missão que, dentro da Igreja Ortodoxa quem elege alguém como santo ou santa é, primeiramente, o povo, não a hierarquia eclesiástica, como vista na Igreja Católica. O eparca continua sua entrevista afirmando ainda que a população local de Joaquim Távora, que conviveu e conheceu Maria Aparecida Beruski, atesta sua vida de santidade e seu ato heroico. Sendo assim, esse foi o primeiro passo para a iniciação do processo canônico de Tita na Igreja Ortodoxa, a aclamação popular. (MELNIK 2017)

No intuito de reforçar a santificação e reconhecimento de Tita para conclusão do processo canônico, está localizado na Igreja Ortodoxa Ucraniana São Demétrio, um ícone feito pelo pintor Michel Kapelhuk, em 2004.(MELNIK 2017)

Caso queira se aprofundar mais recomento um interessante Estudo sobre o processo de canonização de Santa Tita. 

                                                                        

                                                                        Adendos


A Igreja Ortodoxa Ucraniana é uma tradição cristã com mais de mil anos de história na Ucrânia. Ela segue a liturgia e as práticas ortodoxas orientais, com uma hierarquia de bispos e paróquias organizadas em dioceses. Recebeu autocéfalia (independência) em 2018, sendo influente na identidade cultural e política do país.

Melnik 2017 afirma que Maria Aparecida Beruski está no processo de canonização pela Igreja Ortodoxa, ou seja, ainda não é santa pelas diretrizes oficiais dessa instituição. 

Não encontrei informações atualizadas sobre se o processo de canonização foi concluído ou não.

Infelizmente, segundo Melnik (2017) o dossiê do processo do processo de canonização não permite acesso público.


Referências:

https://tcconline.utp.br/media/tcc/2018/10/O-PODER-DA-RELIGIOSIDADE-POPULAR.pdf

https://ucrania-mozambique.blogspot.com/2007/10/ucraniana-primeira-santa-da-amrica.html

https://www.johnsanidopoulos.com/2018/04/maria-berushko-of-brazil-and-eight.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Aparecida_Beruski


Correio de Notícias
5/4/1986