A medicina popular sempre fez parte da história das comunidades brasileiras. Antes do acesso regular a médicos, exames e medicamentos industrializados, muitas pessoas recorreram ao conhecimento empírico, transmitido oralmente, como forma de enfrentar doenças graves. Uma dessas histórias envolve uma receita tradicional à base de jurubeba e pinga, lembrada na região de Joaquim Távora e Jacarezinho, no Norte do Paraná.
O contexto histórico do relato
Segundo a tradição oral, por volta da década de 1960, Seo Moacir Ramos, morador de Joaquim Távora, teria adoecido com malária. Naquele período, o atendimento médico local era extremamente limitado, e ele foi encaminhado para Jacarezinho em busca de ajuda.
Enquanto aguardava atendimento em um posto de saúde de Jacarezinho, apresentando fortes tremores e febres típicas da doença, foi abordado por um senhor da cidade que perguntou o que estava acontecendo. Ao ouvir que se tratava de malária, esse homem lhe ensinou uma receita caseira feita com jurubeba. Seu Moacir, que até então nem conhecia a planta, decidiu procurar um pé de jurubeba, preparar a mistura conforme orientado e utilizá-la.
Já na primeira dose do remédio, segundo o próprio relato, os sintomas do tremor desapareceram. Meses depois, quando houve uma campanha oficial de combate à malária na região, Seu Moacir compareceu novamente para exames em Jacarezinho. O resultado não indicou presença da doença, o que gerou estranhamento por parte de um atendente, já que não havia registro positivo de malária em seu sangue. Ele então explicou que havia adoecido anteriormente e que buscava apenas confirmar se realmente estava curado. A isso, o funcionário do posto, segundo seu Moacir fez anotações a respeito.
Esse episódio é um relato marcante da medicina popular regional e revela como as pessoas buscavam alternativas em um tempo de poucos recursos medicinais.
A receita tradicional (registro histórico)
⚠️ Importante: o que segue é um registro cultural e histórico, não uma recomendação de uso.
Segundo o relato tradicional:
Utilizam-se 19 sementes verdes de jurubeba, divididas ao meio;
As sementes são colocadas em 1 litro de pinga;
Retira-se um pequeno pedaço da raiz do próprio pé de jurubeba;
Esse pedaço de raiz é dividido em 15 pequenos fragmentos;
As raízes devem ser retiradas e levemente secas, apenas para eliminar a umidade, antes de serem colocadas na garrafa;
A mistura permanece em infusão por três dias;
O malarento devia tomar durante o tratamento 3 litros da mistura, sendo que, à medida que o líquido diminuía, completava-se novamente com pinga;
O modo de uso relatado era a ingestão de um pequeno cálice (ou uma dose) pela manhã e outro à tarde.
Reitera-se: trata-se apenas da descrição fiel de uma prática tradicional, conforme transmitida oralmente.
O que é a malária?
A malária é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos pela picada do mosquito Anopheles infectado. Os sintomas mais comuns incluem:
Febre alta recorrente
Calafrios intensos
Tremores
Suor excessivo
Dor de cabeça
Fraqueza extrema
Sem tratamento adequado, a malária pode evoluir para formas graves e até levar à morte. Atualmente, a doença possui diagnóstico preciso por exame de sangue e tratamento padronizado, disponível pelo sistema de saúde.
Jurubeba e o saber popular
A jurubeba é uma planta bastante conhecida na cultura popular brasileira, tradicionalmente associada a efeitos digestivos, hepáticos e estimulantes. No entanto, não há comprovação científica consolidada de que sementes ou raízes de jurubeba tenham eficácia comprovada contra a malária.
Ainda assim, relatos como este despertam uma reflexão legítima: será que determinadas plantas, combinações ou processos tradicionais poderiam conter substâncias com algum efeito antiparasitário? Essa é uma questão que deve ser respondida por meio de estudos científicos sérios, com análise laboratorial, testes controlados e avaliação clínica.
Considerações finais e nota de responsabilidade
Este texto não recomenda, não incentiva e não orienta o uso desta receita para tratamento da malária ou de qualquer outra doença.
O objetivo é preservar a memória e a tradição oral, registrando um conhecimento popular surgido em uma época em que o acesso à medicina era precário em muitas regiões do interior do Brasil.