O chamado Domo de Quatiguá, mais
corretamente denominado na literatura científica como Alto Estrutural de
Quatiguá, é uma das estruturas geológicas mais interessantes e menos
conhecidas do Norte Pioneiro do Paraná. Diferente de montanhas ou morros
evidentes, trata-se de uma estrutura tectônica profunda, cuja
importância não está apenas na paisagem, mas na forma como revela a história
geológica da região.
Do ponto de vista científico, o Alto de Quatiguá é
uma estrutura elevada do embasamento da Bacia do Paraná, formada e
retrabalhada por reativações de antigas falhas geológicas. Essas falhas,
herdadas do embasamento cristalino, voltaram a se movimentar em diferentes
momentos da história geológica, deformando as camadas sedimentares que hoje
afloram na superfície.
Onde ele se
localiza e qual é a sua dimensão
Os estudos indicam que o Alto Estrutural de
Quatiguá se insere no Nordeste do Paraná, em uma faixa estrutural que
envolve principalmente os municípios de Quatiguá, Joaquim Távora e Siqueira
Campos, estendendo sua influência geológica também para áreas do entorno do
Norte Pioneiro.
Embora não exista um “limite visível” na paisagem —
como acontece com serras ou chapadas —, a literatura sugere que o alto possui dezenas
de quilômetros de extensão, configurando um bloco elevado regional,
delimitado por grandes falhas. Em termos práticos, isso significa que ele é
grande demais para ser percebido em um único afloramento, mas pequeno o
suficiente para ter forte impacto na organização do relevo local.
Falhas
geológicas e o formato peculiar do domo
Um dos pontos mais interessantes revelados pelos
estudos é que o chamado “domo” não é um domo clássico, no sentido
geométrico simples de uma cúpula perfeita. O que a pesquisa demonstra é algo
mais sutil e mais interessante.
O Alto de Quatiguá é controlado principalmente por falhas
de direção nordeste–sudoeste (NE), que funcionam como limites estruturais
do bloco elevado. Entre elas, destacam-se falhas conhecidas regionalmente como
as de Quatiguá, Joaquim Távora e Siqueira Campos. Essas falhas
apresentam evidências de movimentos horizontais (transcorrentes) e verticais ao
longo do tempo geológico.
Posteriormente, o alto foi seccionado por falhas
de direção noroeste–sudeste (NW), associadas a fases tectônicas mais jovens
e, possivelmente, ao magmatismo relacionado aos derrames basálticos da Formação
Serra Geral. Essa combinação de falhas NE e NW compartimentou o bloco, inclinou
camadas e criou uma geometria que, quando vista em mapas ou em afloramentos, gera
a aparência dômica.
Por que o
Domo de Quatiguá é importante
A importância do Alto Estrutural de Quatiguá vai
muito além do interesse local. Ele é frequentemente citado na literatura como
um exemplo didático de reativação de paleolineamentos dentro de uma
bacia intracratônica, como a Bacia do Paraná.
Isso é relevante porque mostra que, mesmo em áreas
consideradas tectonicamente “estáveis”, antigas estruturas do embasamento podem
ser reativadas e exercer forte controle sobre:
- a disposição das camadas sedimentares,
- a localização de falhas,
- o desenvolvimento do relevo,
- e até a circulação de fluidos em subsuperfície.
Por esse motivo, o Alto de Quatiguá também é citado
em estudos que discutem modelos estruturais aplicáveis à prospecção
geológica, funcionando como um “laboratório natural” para entender como
estruturas profundas influenciam a geologia superficial.
Reflexos no
relevo e na paisagem atual
Embora o domo em si seja uma estrutura geológica,
seus efeitos podem ser percebidos indiretamente na paisagem. A compartimentação
tectônica influencia:
- a orientação de vales e drenagens,
- a presença de relevo mais dissecado em determinados setores,
- a exposição diferenciada de camadas sedimentares.
Feições como vales encaixados, escarpas rochosas e
alinhamentos topográficos — como os observados na região do Vale da Pirambeira
— não podem ser explicados apenas pela erosão superficial, mas fazem parte de
um controle estrutural regional, no qual o Alto de Quatiguá desempenha
papel central.
Uma
singularidade pouco conhecida
Apesar de sua relevância científica, o Domo (Alto
Estrutural) de Quatiguá ainda é pouco conhecido fora do meio acadêmico. Ele não
é um “cartão-postal” óbvio, mas sim uma estrutura que exige leitura geológica
para ser compreendida.
Justamente por isso, ele representa um patrimônio
geológico silencioso do Norte Pioneiro do Paraná: discreto na paisagem
cotidiana, mas fundamental para entender a história profunda do território.
Mini-dicionário
geológico: entendendo o Domo de Quatiguá
Alto estrutural
Região
da crosta terrestre que foi elevada em relação às áreas vizinhas
por movimentos tectônicos. Não é, necessariamente, um morro visível, mas um bloco
elevado em profundidade, que influencia a disposição das rochas
e do relevo.
Domo
Estrutura
geológica em que as camadas rochosas apresentam tendência a
mergulhar para fora de um ponto central, formando algo
semelhante a uma cúpula. No caso de Quatiguá, o termo é usado de forma descritiva,
pois a estrutura real é mais complexa e controlada por falhas.
Falha geológica
Fratura
na crosta terrestre ao longo da qual ocorreu movimento relativo
das rochas. Pode gerar deslocamentos verticais, horizontais ou
ambos, controlando a formação de vales, escarpas e a orientação do relevo.
Falha transcorrente
Tipo
de falha em que o deslocamento principal é horizontal,
com um bloco deslizando lateralmente em relação ao outro. Muito comum em
estruturas antigas reativadas, como no Alto de Quatiguá.
Paleolineamento
Antigas
zonas de fraqueza da crosta terrestre, geralmente herdadas do embasamento
cristalino. Mesmo muito antigas, podem ser reativadas
e controlar a geologia atual.
Reativação tectônica
Processo
pelo qual uma falha ou estrutura antiga volta a se movimentar
devido a novos esforços tectônicos. É um dos conceitos-chave para entender o
Domo de Quatiguá.
Bacia do Paraná
Grande
bacia sedimentar intracratônica que ocupa parte do sul e sudeste do Brasil.
Formou-se ao longo de centenas de milhões de anos com a deposição de sedimentos
e episódios vulcânicos, como os derrames basálticos da Serra Geral.
Embasamento cristalino
Conjunto
de rochas muito antigas (ígneas e metamórficas) que servem de base
para as rochas sedimentares da Bacia do Paraná. As falhas do Alto de Quatiguá
têm origem nesse embasamento.
Camadas sedimentares
Rochas
formadas pela deposição sucessiva de sedimentos (areia, lama, etc.), geralmente
organizadas em estratos horizontais, que podem ser
inclinados ou deformados por movimentos tectônicos.
Magmatismo Serra Geral
Evento
geológico ocorrido há cerca de 135 milhões de anos, responsável por enormes
derrames de lava basáltica no sul do Brasil. Esse evento contribuiu para reativações
tectônicas na região.
Controle estrutural do relevo
Expressão
usada quando a forma da paisagem (vales, escarpas, alinhamentos) é fortemente
influenciada por falhas e estruturas geológicas, e não
apenas pela erosão superficial.
Bacia intracratônica
Bacia
sedimentar formada no interior de uma placa continental, teoricamente estável,
mas que ainda assim pode sofrer reativações tectônicas,
como ocorre na Bacia do Paraná.
Referências
para aprofundamento
Para quem deseja ir além do texto de divulgação, os
principais trabalhos científicos que embasam essa interpretação são:
- Rostirolla, S. P.; Assine, M. L.; Fernandes, L. A.; Artur, P. C. (2000). Reativação de paleolineamentos durante a evolução da Bacia do Paraná: o exemplo do Alto Estrutural de Quatiguá. Revista Brasileira de Geociências.→ Trabalho de referência sobre o tema, detalha falhas, cinemática e evolução tectônica do alto.
- Vesely, F. F. (2006). Tese de Doutorado – UFPR.→ Discute estruturas regionais da Bacia do Paraná e menciona o domo/alto de Quatiguá no contexto da evolução estratigráfica.
- Licht, O. A. B. (tese, UFPR).→ Aborda anomalias geofísicas e estruturas circulares no Norte Pioneiro do Paraná, situando o Alto de Quatiguá no contexto regional.