segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O DOMO DE QUATIGUÁ: uma singularidade geológica no Norte Pioneiro do Paraná


Esquema conceitual do Domo (Alto Estrutural) de Quatiguá.
Ilustração didática mostrando o soerguimento estrutural controlado por 
falhas geológicas profundas, que influenciam a disposição das camadas sedimentares
 e o relevo atual do Norte Pioneiro do Paraná. A figura não está em escala 
e representa os processos geológicos de forma simplificada.

O chamado Domo de Quatiguá, mais corretamente denominado na literatura científica como Alto Estrutural de Quatiguá, é uma das estruturas geológicas mais interessantes e menos conhecidas do Norte Pioneiro do Paraná. Diferente de montanhas ou morros evidentes, trata-se de uma estrutura tectônica profunda, cuja importância não está apenas na paisagem, mas na forma como revela a história geológica da região.

Do ponto de vista científico, o Alto de Quatiguá é uma estrutura elevada do embasamento da Bacia do Paraná, formada e retrabalhada por reativações de antigas falhas geológicas. Essas falhas, herdadas do embasamento cristalino, voltaram a se movimentar em diferentes momentos da história geológica, deformando as camadas sedimentares que hoje afloram na superfície.

Onde ele se localiza e qual é a sua dimensão

Os estudos indicam que o Alto Estrutural de Quatiguá se insere no Nordeste do Paraná, em uma faixa estrutural que envolve principalmente os municípios de Quatiguá, Joaquim Távora e Siqueira Campos, estendendo sua influência geológica também para áreas do entorno do Norte Pioneiro.

Embora não exista um “limite visível” na paisagem — como acontece com serras ou chapadas —, a literatura sugere que o alto possui dezenas de quilômetros de extensão, configurando um bloco elevado regional, delimitado por grandes falhas. Em termos práticos, isso significa que ele é grande demais para ser percebido em um único afloramento, mas pequeno o suficiente para ter forte impacto na organização do relevo local.

Falhas geológicas e o formato peculiar do domo

Um dos pontos mais interessantes revelados pelos estudos é que o chamado “domo” não é um domo clássico, no sentido geométrico simples de uma cúpula perfeita. O que a pesquisa demonstra é algo mais sutil e mais interessante.

O Alto de Quatiguá é controlado principalmente por falhas de direção nordeste–sudoeste (NE), que funcionam como limites estruturais do bloco elevado. Entre elas, destacam-se falhas conhecidas regionalmente como as de Quatiguá, Joaquim Távora e Siqueira Campos. Essas falhas apresentam evidências de movimentos horizontais (transcorrentes) e verticais ao longo do tempo geológico.

Posteriormente, o alto foi seccionado por falhas de direção noroeste–sudeste (NW), associadas a fases tectônicas mais jovens e, possivelmente, ao magmatismo relacionado aos derrames basálticos da Formação Serra Geral. Essa combinação de falhas NE e NW compartimentou o bloco, inclinou camadas e criou uma geometria que, quando vista em mapas ou em afloramentos, gera a aparência dômica.

Em outras palavras: o “domo” é, na verdade, o resultado da interação entre um alto estrutural alongado e cortes tectônicos posteriores, e não uma simples elevação isolada.

Por que o Domo de Quatiguá é importante

A importância do Alto Estrutural de Quatiguá vai muito além do interesse local. Ele é frequentemente citado na literatura como um exemplo didático de reativação de paleolineamentos dentro de uma bacia intracratônica, como a Bacia do Paraná.

Isso é relevante porque mostra que, mesmo em áreas consideradas tectonicamente “estáveis”, antigas estruturas do embasamento podem ser reativadas e exercer forte controle sobre:

  • a disposição das camadas sedimentares,
  • a localização de falhas,
  • o desenvolvimento do relevo,
  • e até a circulação de fluidos em subsuperfície.

Por esse motivo, o Alto de Quatiguá também é citado em estudos que discutem modelos estruturais aplicáveis à prospecção geológica, funcionando como um “laboratório natural” para entender como estruturas profundas influenciam a geologia superficial.

Reflexos no relevo e na paisagem atual

Embora o domo em si seja uma estrutura geológica, seus efeitos podem ser percebidos indiretamente na paisagem. A compartimentação tectônica influencia:

  • a orientação de vales e drenagens,
  • a presença de relevo mais dissecado em determinados setores,
  • a exposição diferenciada de camadas sedimentares.

Feições como vales encaixados, escarpas rochosas e alinhamentos topográficos — como os observados na região do Vale da Pirambeira — não podem ser explicados apenas pela erosão superficial, mas fazem parte de um controle estrutural regional, no qual o Alto de Quatiguá desempenha papel central.

Uma singularidade pouco conhecida

Apesar de sua relevância científica, o Domo (Alto Estrutural) de Quatiguá ainda é pouco conhecido fora do meio acadêmico. Ele não é um “cartão-postal” óbvio, mas sim uma estrutura que exige leitura geológica para ser compreendida.

Justamente por isso, ele representa um patrimônio geológico silencioso do Norte Pioneiro do Paraná: discreto na paisagem cotidiana, mas fundamental para entender a história profunda do território.

Vale da Pirambeira, Joaquim Távora (PR).
Vale encaixado com escarpas rochosas e leito
 pedregoso, onde o relevo é fortemente
controlado por estruturas geológicas
profundas associadas ao Alto Estrutural
 (Domo) de Quatiguá.


Mini-dicionário geológico: entendendo o Domo de Quatiguá

Alto estrutural

Região da crosta terrestre que foi elevada em relação às áreas vizinhas por movimentos tectônicos. Não é, necessariamente, um morro visível, mas um bloco elevado em profundidade, que influencia a disposição das rochas e do relevo.

Domo

Estrutura geológica em que as camadas rochosas apresentam tendência a mergulhar para fora de um ponto central, formando algo semelhante a uma cúpula. No caso de Quatiguá, o termo é usado de forma descritiva, pois a estrutura real é mais complexa e controlada por falhas.

 Falha geológica

Fratura na crosta terrestre ao longo da qual ocorreu movimento relativo das rochas. Pode gerar deslocamentos verticais, horizontais ou ambos, controlando a formação de vales, escarpas e a orientação do relevo.

 Falha transcorrente

Tipo de falha em que o deslocamento principal é horizontal, com um bloco deslizando lateralmente em relação ao outro. Muito comum em estruturas antigas reativadas, como no Alto de Quatiguá.

 Paleolineamento

Antigas zonas de fraqueza da crosta terrestre, geralmente herdadas do embasamento cristalino. Mesmo muito antigas, podem ser reativadas e controlar a geologia atual.

 Reativação tectônica

Processo pelo qual uma falha ou estrutura antiga volta a se movimentar devido a novos esforços tectônicos. É um dos conceitos-chave para entender o Domo de Quatiguá.

 Bacia do Paraná

Grande bacia sedimentar intracratônica que ocupa parte do sul e sudeste do Brasil. Formou-se ao longo de centenas de milhões de anos com a deposição de sedimentos e episódios vulcânicos, como os derrames basálticos da Serra Geral.

 Embasamento cristalino

Conjunto de rochas muito antigas (ígneas e metamórficas) que servem de base para as rochas sedimentares da Bacia do Paraná. As falhas do Alto de Quatiguá têm origem nesse embasamento.

 Camadas sedimentares

Rochas formadas pela deposição sucessiva de sedimentos (areia, lama, etc.), geralmente organizadas em estratos horizontais, que podem ser inclinados ou deformados por movimentos tectônicos.

 Magmatismo Serra Geral

Evento geológico ocorrido há cerca de 135 milhões de anos, responsável por enormes derrames de lava basáltica no sul do Brasil. Esse evento contribuiu para reativações tectônicas na região.

 Controle estrutural do relevo

Expressão usada quando a forma da paisagem (vales, escarpas, alinhamentos) é fortemente influenciada por falhas e estruturas geológicas, e não apenas pela erosão superficial.

 Bacia intracratônica

Bacia sedimentar formada no interior de uma placa continental, teoricamente estável, mas que ainda assim pode sofrer reativações tectônicas, como ocorre na Bacia do Paraná.

 

Referências para aprofundamento

Para quem deseja ir além do texto de divulgação, os principais trabalhos científicos que embasam essa interpretação são:

  • Rostirolla, S. P.; Assine, M. L.; Fernandes, L. A.; Artur, P. C. (2000). Reativação de paleolineamentos durante a evolução da Bacia do Paraná: o exemplo do Alto Estrutural de Quatiguá. Revista Brasileira de Geociências.
    Trabalho de referência sobre o tema, detalha falhas, cinemática e evolução tectônica do alto.
  • Vesely, F. F. (2006). Tese de Doutorado – UFPR.
    Discute estruturas regionais da Bacia do Paraná e menciona o domo/alto de Quatiguá no contexto da evolução estratigráfica.
  • Licht, O. A. B. (tese, UFPR).
    Aborda anomalias geofísicas e estruturas circulares no Norte Pioneiro do Paraná, situando o Alto de Quatiguá no contexto regional.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Receita tradicional contra a malária - Um relato da medicina popular do Norte Pioneiro do Paraná


Foto: Gustavo Giacon, Viveiro Ciprest





A medicina popular sempre fez parte da história das comunidades brasileiras. Antes do acesso regular a médicos, exames e medicamentos industrializados, muitas pessoas recorreram ao conhecimento empírico, transmitido oralmente, como forma de enfrentar doenças graves. Uma dessas histórias envolve uma receita tradicional à base de jurubeba e pinga, lembrada na região de Joaquim Távora e Jacarezinho, no Norte do Paraná.

O contexto histórico do relato

Segundo a tradição oral, por volta da década de 1960, Seo Moacir Ramos, morador de Joaquim Távora, teria adoecido com malária. Naquele período, o atendimento médico local era extremamente limitado, e ele foi encaminhado para Jacarezinho em busca de ajuda.

Enquanto aguardava atendimento em um posto de saúde de Jacarezinho, apresentando fortes tremores e febres típicas da doença, foi abordado por um senhor da cidade que perguntou o que estava acontecendo. Ao ouvir que se tratava de malária, esse homem lhe ensinou uma receita caseira feita com jurubeba. Seu Moacir, que até então nem conhecia a planta, decidiu procurar um pé de jurubeba, preparar a mistura conforme orientado e utilizá-la.

Já na primeira dose do remédio, segundo o próprio relato, os sintomas do tremor desapareceram. Meses depois, quando houve uma campanha oficial de combate à malária na região, Seu Moacir compareceu novamente para exames em Jacarezinho. O resultado não indicou presença da doença, o que gerou estranhamento por parte de um atendente, já que não havia registro positivo de malária em seu sangue. Ele então explicou que havia adoecido anteriormente e que buscava apenas confirmar se realmente estava curado. A isso, o funcionário do posto, segundo seu Moacir fez anotações a respeito.

Esse episódio é um relato marcante da medicina popular regional e revela como as pessoas buscavam alternativas em um tempo de poucos recursos medicinais.

A receita tradicional (registro histórico)

⚠️ Importante: o que segue é um registro cultural e histórico, não uma recomendação de uso.

Segundo o relato tradicional:

  • Utilizam-se 19 sementes verdes de jurubeba, divididas ao meio;

  • As sementes são colocadas em 1 litro de pinga;

  • Retira-se um pequeno pedaço da raiz do próprio pé de jurubeba;

  • Esse pedaço de raiz é dividido em 15 pequenos fragmentos;

  • As raízes devem ser retiradas e levemente secas, apenas para eliminar a umidade, antes de serem colocadas na garrafa;

  • A mistura permanece em infusão por três dias;

  • O malarento devia tomar durante o tratamento 3 litros da mistura, sendo que, à medida que o líquido diminuía, completava-se novamente com pinga;

  • O modo de uso relatado era a ingestão de um pequeno cálice (ou uma dose) pela manhã e outro à tarde.

Reitera-se: trata-se apenas da descrição fiel de uma prática tradicional, conforme transmitida oralmente.

O que é a malária?

A malária é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos pela picada do mosquito Anopheles infectado. Os sintomas mais comuns incluem:

  • Febre alta recorrente

  • Calafrios intensos

  • Tremores

  • Suor excessivo

  • Dor de cabeça

  • Fraqueza extrema

Sem tratamento adequado, a malária pode evoluir para formas graves e até levar à morte. Atualmente, a doença possui diagnóstico preciso por exame de sangue e tratamento padronizado, disponível pelo sistema de saúde.

Jurubeba e o saber popular

A jurubeba é uma planta bastante conhecida na cultura popular brasileira, tradicionalmente associada a efeitos digestivos, hepáticos e estimulantes. No entanto, não há comprovação científica consolidada de que sementes ou raízes de jurubeba tenham eficácia comprovada contra a malária.

Ainda assim, relatos como este despertam uma reflexão legítima: será que determinadas plantas, combinações ou processos tradicionais poderiam conter substâncias com algum efeito antiparasitário? Essa é uma questão que deve ser respondida por meio de estudos científicos sérios, com análise laboratorial, testes controlados e avaliação clínica.

Considerações finais e nota de responsabilidade

Este texto não recomenda, não incentiva e não orienta o uso desta receita para tratamento da malária ou de qualquer outra doença.

O objetivo é preservar a memória e a tradição oral, registrando um conhecimento popular surgido em uma época em que o acesso à medicina era precário em muitas regiões do interior do Brasil.

📌 Nota importante:
O uso de qualquer medicamento, substância natural ou preparo caseiro deve ser feito com extremo cuidado. Relatos tradicionais não substituem diagnóstico médico, exames laboratoriais nem tratamentos reconhecidos pela ciência.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O peso eleitoral do Norte Pioneiro em 1914

 

Ilustração gerada por IA

O quadro de eleitores publicado no Diário Oficial do Paraná em 15 de agosto de 1914 oferece um raro retrato quantitativo da participação política no Norte Pioneiro paranaense durante a Primeira República. Nele aparecem localidades centrais da região — Jacarezinho, Tomazina, Ribeirão Claro e Jaboticabal — permitindo observar diferenças expressivas de peso eleitoral e, consequentemente, de influência política. Jacarezinho se destaca de forma clara. Com 1.440 eleitores no total, o município apresentava um contingente eleitoral mais que o dobro de Tomazina e Ribeirão Claro, e quase cinco vezes superior ao de Jaboticabal. 

Esse dado confirma a posição de Jacarezinho como polo regional já consolidado em 1914, concentrando população, atividades comerciais, serviços públicos e, sobretudo, maior atenção do poder político estadual.

Tomazina e Ribeirão Claro aparecem em patamar intermediário, com números muito próximos entre si (684 e 737 eleitores, respectivamente). Essa proximidade sugere realidades demográficas e administrativas semelhantes, típicas de núcleos que exerciam funções locais importantes, mas ainda sem o peso político dos grandes centros regionais.

Jaboticabal (atual Carlópolis), por sua vez, surge com um contingente bem mais modesto: 297 eleitores. Esse número reforça o caráter ainda essencialmente rural e disperso da localidade, cuja organização política formal era limitada quando comparada aos municípios mais estruturados. Ainda assim, sua presença na tabela demonstra que Jaboticabal já estava integrado ao sistema eleitoral estadual, mesmo com reduzida capacidade de influência.

Diário oficial APP

Quando comparados entre si, os números revelam não apenas diferenças populacionais, mas sobretudo desigualdades de poder político efetivo. Em um sistema em que decisões locais e estaduais eram fortemente influenciadas pelo controle do eleitorado, localidades com maior número de eleitores tinham vantagem evidente na negociação de obras, cargos e investimentos públicos.

É bom destacar que o direito ao voto era extremamente restrito. Somente homens maiores de 21 anos, alfabetizados e considerados “cidadãos ativos” podiam votar. Estavam excluídos do processo eleitoral: mulheres, analfabetos, soldados rasos, religiosos sujeitos a voto de obediência, grande parte da população pobre e rural.

O voto era aberto, não secreto, o que facilitava pressões, coerções e fraudes. Nesse contexto floresceu o chamado coronelismo, sistema no qual líderes locais — grandes proprietários de terra ou figuras influentes — controlavam o eleitorado por meio de favores, dependência econômica e intimidação.

As Juntas de Recursos, como a que publicou este quadro, tinham papel central no alistamento, revisão e exclusão de eleitores. Isso tornava o processo eleitoral altamente manipulável, pois a simples exclusão de eleitores podia alterar drasticamente o resultado de uma eleição.

Os números oficiais do eleitorado paranaense em 1914 ajudam a desmontar uma ideia comum projetada a partir do presente: a de que as regiões do estado sempre foram muito desiguais em termos de peso político. Naquele momento, essas diferenças ainda eram relativamente pequenas — inclusive quando comparamos o Norte Pioneiro com áreas que hoje concentram grandes centros urbanos.

Essa comparação é reveladora. Enquanto hoje algumas regiões concentram dezenas ou centenas de milhares de eleitores, em 1914 diferenças de 500 ou 1.000 votantes já eram suficientes para definir hierarquias regionais. O poder político não estava ancorado em grandes massas eleitorais, mas em pequenos contingentes rigidamente controlados. 

A pergunta que se faz é: por que esta região cresceu menos do outras que na época tinham praticamente o mesmo eleitorado? Essa pergunta fica como sugestão para estudos futuros para quem o quiser explorar. 






quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

TEM ANO BOM?



Imagem gerada por IA
Se você foi criança em Joaquim Távora/PR nas décadas de 1980 e 1990, certamente se lembra de uma pergunta; “Tem Ano Bom?”. 

No dia 1º de janeiro, logo ao amanhecer, era comum ver grupos de crianças pelas ruas, batendo palmas ou gritando nas portas das casas: “Tem Ano Bom?”.

Ceia de réveillon? Fogos de artifício? Nada disso era prioridade para nós. As crianças queriam mesmo era dormir cedo, porque, no primeiro dia do ano, por volta das seis da manhã, já estavam nas ruas, animadas, percorrendo o bairro inteiro. A recompensa vinha em forma de balas, doces e pirulitos, oferecidos com alegria pelos moradores.

Eu, particularmente, não tinha muito o costume de sair pedindo Ano Bom. Lembro-me de ter participado apenas uma vez, quando me juntei a outras crianças. Voltei para casa com uma sacola cheia de doces. Como nunca fui muito fã de guloseimas, acabei doando quase tudo para meus irmãos, se a memória não me falha.

Recordo-me também de que meus pais mantinham viva essa tradição.  Compravam sacos de balas durante a semana e acordavam logo cedo, no dia 1º de janeiro, para distribuí-las às crianças. Ficavam à porta de casa, esperando os pequenos que passavam, fazendo a pergunta clássica "Tem ano bom?" e a resposta era Tem! Seguida de um sorriso, da entrega de um punhado de doces às crianças e da troca de desejos de Feliz Ano Novo e Deus te abençoe.

Durante muitos anos, essa tradição se manteve viva no município de Joaquim Távora. É uma tradição simples e profundamente humana. Não se sabe ao certo quem a introduziu na comunidade. Ela não veio de decreto, nem de livro, mas nasceu da convivência cotidiana, da repetição espontânea e da boa vontade das pessoas.

Um gesto simples e de baixo valor material, mas carrega um significado profundo: começar o ano partilhando, acolhendo e reconhecendo a alegria das crianças. Sempre foi uma forma silenciosa de ensinar valores como generosidade, respeito e convivência comunitária.

Com o passar do tempo, porém, essa prática foi se tornando menos frequente. Ainda há crianças que saem pedindo Ano Bom, mas já não encontram tantas portas abertas. Muitos deixaram de levantar cedo; outros simplesmente se esqueceram do costume. Vive-se hoje uma rotina mais apressada e, infelizmente, mais individualista, em que pequenos gestos comunitários acabam ficando em segundo plano.

Ainda, hoje, em 1º de janeiro de 2026, passaram mais de vinte crianças pela porta de minha casa pedindo Ano Bom. Confesso que fiquei desapontado comigo mesmo, pois havia me esquecido de comprar doces. Felizmente, minha mão havia comprado algumas balas e pirulitos no dia anterior, que serviram para não deixar a tradição passar em branco.

Refletir sobre essa mudança não é apenas um exercício de nostalgia, mas um convite à consciência. Tradições como essa não existem por acaso: elas criam vínculos, fortalecem a comunidade e fazem da infância um tempo de alegria compartilhada. Resgatar o costume de oferecer doces no Ano-Novo não é apenas olhar para o passado, mas reafirmar um compromisso com a convivência, a generosidade e o bem-estar coletivo.

Talvez seja hora de lembrar que o Ano-Novo pode começar de forma mais simples — e muito mais bonita: com crianças sorrindo pelas ruas, portas abertas e a certeza de que a alegria, quando partilhada, se multiplica.

Além disso, poderia se pensar na preservação dessa prática como parte do patrimônio cultural imaterial do município de Joaquim Távora. 

O “Tem Ano Bom”? não é apenas uma brincadeira infantil, mas uma expressão viva da memória coletiva, dos valores de solidariedade e do espírito comunitário que marcaram gerações. Resgatar, manter viva e fortalecer essa tradição significa reconhecer sua importância histórica e cultural, incentivando sua continuidade entre as novas gerações. Ao valorizá-la como patrimônio imaterial, o município reafirma sua identidade, honra sua história cotidiana e transforma um gesto simples em símbolo duradouro de pertencimento e convivência.

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O HOMEM QUE SE RECUSOU SER PREFEITO DE SANTO ANTÔNIO DA PLATINA


Imagem gerada por IA
A história política de Santo Antônio da Platina é marcada por episódios que revelam não apenas disputas de poder, mas também as ambiguidades próprias dos períodos de ruptura institucional. Um desses episódios envolve Joaquim Cardoso da Silveira, personagem recorrente da política local nas primeiras décadas do século XX, cujo nome voltou à cena em meio ao conturbado cenário posterior ao Golpe de 1930.

Eleito prefeito em 21 de setembro de 1928, Joaquim Cardoso da Silveira governou o município até que, com a eclosão do Golpe de 1930 e a instauração do governo provisório no país, perde o mandato e é substituído por prefeitos nomeados pelo novo regime. (Câmara de Santo Antônio)

A partir de então, o Brasil viveu sob um regime em que as câmaras municipais foram dissolvidas, e prefeitos passaram a ser escolhidos por meio de nomeações feitas por interventores ou governos estaduais, sem a participação direta da população. Mesmo sendo identificado com o grupo político anterior ao golpe, Joaquim Cardoso foi nomeado novamente em 11 de novembro de 1935 como prefeito de Santo Antônio da Platina pelo interventor Manoel Ribas — uma nomeação que, por si só, já refletia a suspensão das práticas eleitorais e a concentração de poder nas mãos de instâncias superiores. (Câmara de Santo Antônio)

O que se seguiu foi um gesto político que seria lembrado de formas diversas ao longo do tempo: Joaquim Cardoso da Silveira recusou-se a assumir o mandato, alegando discordância com o caráter discricionário e autoritário do regime vigente, que retirava da população o direito de escolher seus representantes.

Esse episódio foi interpretado de maneiras distintas por diferentes grupos políticos da época. Partidários do novo regime frequentemente o criticaram, enxergando sua postura como resistente a uma nova ordem que buscava consolidar-se de forma centralizada. Por outro lado, outros observadores defendiam que sua recusa expressava uma insatisfação com a perda de processos democráticos, embora reconhecessem que a própria política da época estivesse imersa em tensões e ambiguidade.

Biografia e trajetória política

Joaquim Cardoso da Silveira foi uma figura presente nas articulações políticas de Santo Antônio da Platina nas décadas de 1920 e 1930, período em que o município ainda consolidava suas instituições. Foi prefeito municipal em diferentes momentos, tanto por nomeação quanto por eleição, participando ativamente da vida administrativa local antes e depois do Golpe de 1930. (Câmara de Santo Antônio)

Após seu mandato eletivo ter sido interrompido com o golpe, ele voltou à cena política local e, mais tarde, ampliou sua atuação para o plano estadual, exercendo o cargo de deputado estadual, no qual se envolveu nas demandas e debates relacionados ao desenvolvimento do Norte do Paraná.

No âmbito municipal, Joaquim Cardoso também teve participação na Câmara de Santo Antônio da Platina, onde atuou ao lado de Miguel Dias, a quem faz menção que era um grande líder político do Norte do Paraná. Nessa convivência política, foram comuns as articulações em torno de interesses regionais e as disputas próprias do contexto político da época, marcado por alianças, divergências e rearranjos de poder.

Narrativas, críticas e método histórico

A recusa de Joaquim Cardoso da Silveira em assumir a prefeitura em 1935 não pode ser vista de forma isolada. Ela faz parte de um debate maior sobre o que, afinal, foi o movimento de 1930. Aquilo que muitos chamaram de “Revolução”, para outros, na prática, acabou sendo um governo autoritário, que interrompeu a ordem democrática da época, fechou câmaras municipais e substituiu eleições por nomeações.

Por isso, a atitude de Joaquim Cardoso pode gerar leituras diferentes, dependendo do ponto de vista adotado. Para alguns, sua recusa pode ser entendida como uma forma de não compactuar com a centralização do poder e com a perda da autonomia dos municípios. Para outros, especialmente entre os apoiadores do novo regime, o gesto pode ser visto com desconfiança, como cálculo político ou simples resistência às mudanças impostas naquele momento.

A grande questão — e talvez a mais difícil de responder — é saber se essa interrupção da ordem democrática foi, no fim das contas, melhor ou pior para o Norte Pioneiro do Paraná e para a região. Essa não é uma resposta que se encontra em frases prontas ou versões simplificadas da história. Ela exige pesquisa, comparação de fontes e estudos sérios, feitos com método e cuidado.

Isso porque fatos históricos não se explicam sozinhos. Para entender episódios como esse, é preciso olhar documentos oficiais, jornais da época, atas da Câmara, correspondências e outros registros, sempre levando em conta o contexto, as disputas políticas e os interesses em jogo.

Mais do que um caso curioso do passado, a recusa de Joaquim Cardoso ajuda a mostrar como a política local do Norte do Paraná foi marcada por contradições, conflitos e escolhas difíceis em tempos de mudança. E também lembra que a história é feita de múltiplas versões — e que cabe ao pesquisador, e ao leitor atento, ir além da narrativa mais fácil.

Veja palavras do próprio Silveira: Reportagem o Dia


V

Referências

CÂMARA MUNICIPAL DE SANTO ANTÔNIO DA PLATINA. Relação de ex-prefeitos de Santo Antônio da Platina. Santo Antônio da Platina, PR. Disponível em: https://www.santoantoniodaplatina.pr.leg.br/institucional/utilidade-publica/relacao-de-ex-prefeitos. Acesso em: 26 dez. 2025.

O Dia (Curitiba, PR). Perfil de Miguel Dias. O Dia, Curitiba, 19 mar. 1953. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=092932&Pesq=%22Miguel%20Dias%22&id=37967009202212&pagfis=77640. Acesso em: 29 dez. 2025.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O HOMEM DE RETALHOS

 

O Homem de Retalhos

O início desta história inusitada data por volta de 1922, nos tempos da construção do ramal Paranapanema, entre Quatiguá e Joaquim Távora, época em que muita gente afluiu para a região em busca de emprego e oportunidade.

Meu bisavô e imigrante italiano, Enrico Tressoldi, trabalhava como operário naquela obra, cavoucando terras e nivelando a estrada; literalmente, construindo o traçado da futura ferrovia. E isso ele fazia junto de outros homens vindos de várias localidades, que se habituavam facilmente com o barulho das ferramentas e o canto dos pássaros, tão abundantes naquela época, devido a ainda existência de grandes florestas que mais tarde seriam derrubadas para a extração de madeira e também para a labuta agropecuária.

Certa tarde, três companheiros de trabalho, vendo laranjas maduras em um pomar localizado a cerca de trezentos metros ao norte do atual viaduto, com água na boca e um pouco de fome, resolveram furtar algumas laranjas.

O sol ainda estava alto quando, entre os galhos das laranjeiras, viram, ao longe e se aproximando, algo diferente de tudo o que já tinham visto na vida e se movia rápido atravessando as terras daquela fazenda.

Era um homem de estatura gigantesca, de aproximadamente oito metros de altura,  a pele feita de pano, o corpo desgrenhado como um boneco de trapos ou retalhos. O ser caminhava firme, na direção dos ladrões.

Com a consciência pesada pelo furto, embora insignificante, e com aquele ser, certamente sobrenatural, pensaram que era um acerto de contas pelas laranjas pegas sem permissão.

Então o medo tomou conta deles. Desceram das árvores como puderam, pulando, arranhando-se, escorregando-se e caindo. Antes mesmos que eles tivessem conseguido descer totalmente, o ser, que mais parecia um poste que tinha ganhado corpo, já estava a cerca de dois metros próximo às laranjeiras.

Aí eles se apavoraram e gritaram e correram tanto que o tecido de suas camisas se movimentava freneticamente pela velocidade que corriam. Quando chegaram até o posto de trabalho que tinham abandonado, tentavam contar o fato à Enrico, porém ficaram resmungando sons sem nexo e não soltavam a voz... Até que, vinte minutos depois, quando acalmados por Enrico, contaram ao colega imigrante o que viram.

Enrico não se adentrou muito no mérito da questão, mas ficou meio receoso e pensou ser uma assombração. Os três companheiros, nunca mais trabalharam tranquilos naquele trecho. Inclusive ficavam com medo achar uma moita para fazer suas necessidades e dar de cara com o Homem de Retalho novamente...

Desde esse fato, passaram-se seis anos, a linha férrea já havia sido construída e Enrico se estabeleceu no bairro Jacaré de Cima numa propriedade rural localizada entre os municípios de Siqueira Campos e Quatiguá.

Precisou Enrico buscar algumas coisas na estação de Afonso Camargo, atual Joaquim Távora, além de comprar alguns poucos víveres necessários.

Terminada sua tarefa, na por volta das quatro da tarde, Enrico seguia de volta a seu sítio de Afonso Camargo para Quatiguá. Montado em um cavalo marrom, quando avistou à encruzilhada da estrada que chega até a chácara do Peixinho, sem qualquer aviso prévio, viu o que só poderia ser o mesmo homem de pano, vindo por aquela estrada.

Enrico, instintivamente puxou as rédeas e cutucou com os calcanhares das botas o cavalo para que este seguisse um galope rápido, porém, o animal se recusava a ir rápido, e quanto mais Enrico tentava apressar o animal, mais lento ele ia.

Aquele medo acompanhado de arrepio pelo desconhecido, a aceleração do coração e o desespero pela lentidão do equino se fez presente, mas também, uma coragem tênue lhe dizia que não podia recuar. Colocou os pensamentos em Deus e pensou que o que quer que fosse aquele ser o respeitava e não o afrontava. Se submetia mentalmente à aparição, pois tudo que não queria era uma afronta direta com o que quer que fosse aquilo.

Quando, entre angustias medos e autoafirmações de ordem a si mesmo para não surtar, finalmente, transpôs o eixo da encruzilhada o Homem de Retalhos passou em linha reta próxima a garupa de seu cavalo e continuou a trajetória sem incomodar Enrico ou o animal e sem pronunciar qualquer som.

Enrico nem quis olhar direto para aquele ser, nem olhar para trás, simplesmente conseguiu acelerar o cavalo e foi o mais rápido possível para a sua casa, rezando para que conseguisse chegar em casa antes de anoitecer.

Enrico imediatamente lembrou daquela história dos furtadores de laranja, embora esta aparição tenha acontecido a aproximadamente oitocentos metros da primeira aparição.

Chegando em casa contou tudo a sua esposa Irma e a seus filhos. Enrico nunca se esqueceu desse episódio enquanto viveu e, volta e meia, o relatava para parentes e amigos.

O tempo passou, a história virou lembrança, depois cochicho e, por fim, quase lenda, um causo.

Mas no início dos anos oitenta, aproximadamente em 1982. Umas oito horas noite, João Vargas, conhecido como João Boi, amigo de meu pai, José Balestra Tressoldi, conhecido como Zé Gordo, perguntou a José se tinha uma leitoa para vender, pois estava com vontade de assar uma leitoa para comer.

José disse que tinha a leitoa, mas que não ia vender, ia dá-la, pois queria também saborear com o amigo a carne assada do animal.

Assim decidido, adentraram na picape Willys 67 de meu pai e foram de Joaquim Távora, até a chácara de propriedade de José que atualmente é propriedade de Sílvio Garcia e se localiza atrás da ração pioneira.

Isso era nove horas da noite, ao se aproximar da encruzilhada da estrada da chácara do Peixinho, o farol da camionete iluminou a estrada e ambos viram um homem gigantesco, agora não com os aspecto de feito de retalhos por causa da noite, mas com o aspecto de sombra, os dois nem sequer esboçaram palavras, engoliram seco, se arrepiaram e se entreolharam, ao que José sentou o pé na tábua, estavam ainda a 50 metros da encruzilhada e o homem parecia estar a uns cem metros de distância, quando a camionete cruzou a encruzilhada o homem passou imediatamente atrás da camionete.

Isso provocou um medo estranho nos dois, foram pegar a leitoa, mas rezavam para não cruzar com aquele gigante novamente. Evitaram falar no assunto por alguns dias devido ao impacto da visão, depois que assimilaram teciam comentários sobre o que seria aquilo.

Isso não é um conto ou uma história fantasiada, é um relato curioso que envolveu 6 pessoas ao longo do tempo. O que poderia ser, um ser de outro mundo, uma espécie desconhecida, um aviso de uma força oculta? Ou alguma outra possibilidade?

Não se sabe a resposta, o que se sabe é que tal visagem ocorreu e ocorreu naquela parte do município de Joaquim Távora.