segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O DOMO DE QUATIGUÁ: uma singularidade geológica no Norte Pioneiro do Paraná


Esquema conceitual do Domo (Alto Estrutural) de Quatiguá.
Ilustração didática mostrando o soerguimento estrutural controlado por 
falhas geológicas profundas, que influenciam a disposição das camadas sedimentares
 e o relevo atual do Norte Pioneiro do Paraná. A figura não está em escala 
e representa os processos geológicos de forma simplificada.

O chamado Domo de Quatiguá, mais corretamente denominado na literatura científica como Alto Estrutural de Quatiguá, é uma das estruturas geológicas mais interessantes e menos conhecidas do Norte Pioneiro do Paraná. Diferente de montanhas ou morros evidentes, trata-se de uma estrutura tectônica profunda, cuja importância não está apenas na paisagem, mas na forma como revela a história geológica da região.

Do ponto de vista científico, o Alto de Quatiguá é uma estrutura elevada do embasamento da Bacia do Paraná, formada e retrabalhada por reativações de antigas falhas geológicas. Essas falhas, herdadas do embasamento cristalino, voltaram a se movimentar em diferentes momentos da história geológica, deformando as camadas sedimentares que hoje afloram na superfície.

Onde ele se localiza e qual é a sua dimensão

Os estudos indicam que o Alto Estrutural de Quatiguá se insere no Nordeste do Paraná, em uma faixa estrutural que envolve principalmente os municípios de Quatiguá, Joaquim Távora e Siqueira Campos, estendendo sua influência geológica também para áreas do entorno do Norte Pioneiro.

Embora não exista um “limite visível” na paisagem — como acontece com serras ou chapadas —, a literatura sugere que o alto possui dezenas de quilômetros de extensão, configurando um bloco elevado regional, delimitado por grandes falhas. Em termos práticos, isso significa que ele é grande demais para ser percebido em um único afloramento, mas pequeno o suficiente para ter forte impacto na organização do relevo local.

Falhas geológicas e o formato peculiar do domo

Um dos pontos mais interessantes revelados pelos estudos é que o chamado “domo” não é um domo clássico, no sentido geométrico simples de uma cúpula perfeita. O que a pesquisa demonstra é algo mais sutil e mais interessante.

O Alto de Quatiguá é controlado principalmente por falhas de direção nordeste–sudoeste (NE), que funcionam como limites estruturais do bloco elevado. Entre elas, destacam-se falhas conhecidas regionalmente como as de Quatiguá, Joaquim Távora e Siqueira Campos. Essas falhas apresentam evidências de movimentos horizontais (transcorrentes) e verticais ao longo do tempo geológico.

Posteriormente, o alto foi seccionado por falhas de direção noroeste–sudeste (NW), associadas a fases tectônicas mais jovens e, possivelmente, ao magmatismo relacionado aos derrames basálticos da Formação Serra Geral. Essa combinação de falhas NE e NW compartimentou o bloco, inclinou camadas e criou uma geometria que, quando vista em mapas ou em afloramentos, gera a aparência dômica.

Em outras palavras: o “domo” é, na verdade, o resultado da interação entre um alto estrutural alongado e cortes tectônicos posteriores, e não uma simples elevação isolada.

Por que o Domo de Quatiguá é importante

A importância do Alto Estrutural de Quatiguá vai muito além do interesse local. Ele é frequentemente citado na literatura como um exemplo didático de reativação de paleolineamentos dentro de uma bacia intracratônica, como a Bacia do Paraná.

Isso é relevante porque mostra que, mesmo em áreas consideradas tectonicamente “estáveis”, antigas estruturas do embasamento podem ser reativadas e exercer forte controle sobre:

  • a disposição das camadas sedimentares,
  • a localização de falhas,
  • o desenvolvimento do relevo,
  • e até a circulação de fluidos em subsuperfície.

Por esse motivo, o Alto de Quatiguá também é citado em estudos que discutem modelos estruturais aplicáveis à prospecção geológica, funcionando como um “laboratório natural” para entender como estruturas profundas influenciam a geologia superficial.

Reflexos no relevo e na paisagem atual

Embora o domo em si seja uma estrutura geológica, seus efeitos podem ser percebidos indiretamente na paisagem. A compartimentação tectônica influencia:

  • a orientação de vales e drenagens,
  • a presença de relevo mais dissecado em determinados setores,
  • a exposição diferenciada de camadas sedimentares.

Feições como vales encaixados, escarpas rochosas e alinhamentos topográficos — como os observados na região do Vale da Pirambeira — não podem ser explicados apenas pela erosão superficial, mas fazem parte de um controle estrutural regional, no qual o Alto de Quatiguá desempenha papel central.

Uma singularidade pouco conhecida

Apesar de sua relevância científica, o Domo (Alto Estrutural) de Quatiguá ainda é pouco conhecido fora do meio acadêmico. Ele não é um “cartão-postal” óbvio, mas sim uma estrutura que exige leitura geológica para ser compreendida.

Justamente por isso, ele representa um patrimônio geológico silencioso do Norte Pioneiro do Paraná: discreto na paisagem cotidiana, mas fundamental para entender a história profunda do território.

Vale da Pirambeira, Joaquim Távora (PR).
Vale encaixado com escarpas rochosas e leito
 pedregoso, onde o relevo é fortemente
controlado por estruturas geológicas
profundas associadas ao Alto Estrutural
 (Domo) de Quatiguá.


Mini-dicionário geológico: entendendo o Domo de Quatiguá

Alto estrutural

Região da crosta terrestre que foi elevada em relação às áreas vizinhas por movimentos tectônicos. Não é, necessariamente, um morro visível, mas um bloco elevado em profundidade, que influencia a disposição das rochas e do relevo.

Domo

Estrutura geológica em que as camadas rochosas apresentam tendência a mergulhar para fora de um ponto central, formando algo semelhante a uma cúpula. No caso de Quatiguá, o termo é usado de forma descritiva, pois a estrutura real é mais complexa e controlada por falhas.

 Falha geológica

Fratura na crosta terrestre ao longo da qual ocorreu movimento relativo das rochas. Pode gerar deslocamentos verticais, horizontais ou ambos, controlando a formação de vales, escarpas e a orientação do relevo.

 Falha transcorrente

Tipo de falha em que o deslocamento principal é horizontal, com um bloco deslizando lateralmente em relação ao outro. Muito comum em estruturas antigas reativadas, como no Alto de Quatiguá.

 Paleolineamento

Antigas zonas de fraqueza da crosta terrestre, geralmente herdadas do embasamento cristalino. Mesmo muito antigas, podem ser reativadas e controlar a geologia atual.

 Reativação tectônica

Processo pelo qual uma falha ou estrutura antiga volta a se movimentar devido a novos esforços tectônicos. É um dos conceitos-chave para entender o Domo de Quatiguá.

 Bacia do Paraná

Grande bacia sedimentar intracratônica que ocupa parte do sul e sudeste do Brasil. Formou-se ao longo de centenas de milhões de anos com a deposição de sedimentos e episódios vulcânicos, como os derrames basálticos da Serra Geral.

 Embasamento cristalino

Conjunto de rochas muito antigas (ígneas e metamórficas) que servem de base para as rochas sedimentares da Bacia do Paraná. As falhas do Alto de Quatiguá têm origem nesse embasamento.

 Camadas sedimentares

Rochas formadas pela deposição sucessiva de sedimentos (areia, lama, etc.), geralmente organizadas em estratos horizontais, que podem ser inclinados ou deformados por movimentos tectônicos.

 Magmatismo Serra Geral

Evento geológico ocorrido há cerca de 135 milhões de anos, responsável por enormes derrames de lava basáltica no sul do Brasil. Esse evento contribuiu para reativações tectônicas na região.

 Controle estrutural do relevo

Expressão usada quando a forma da paisagem (vales, escarpas, alinhamentos) é fortemente influenciada por falhas e estruturas geológicas, e não apenas pela erosão superficial.

 Bacia intracratônica

Bacia sedimentar formada no interior de uma placa continental, teoricamente estável, mas que ainda assim pode sofrer reativações tectônicas, como ocorre na Bacia do Paraná.

 

Referências para aprofundamento

Para quem deseja ir além do texto de divulgação, os principais trabalhos científicos que embasam essa interpretação são:

  • Rostirolla, S. P.; Assine, M. L.; Fernandes, L. A.; Artur, P. C. (2000). Reativação de paleolineamentos durante a evolução da Bacia do Paraná: o exemplo do Alto Estrutural de Quatiguá. Revista Brasileira de Geociências.
    Trabalho de referência sobre o tema, detalha falhas, cinemática e evolução tectônica do alto.
  • Vesely, F. F. (2006). Tese de Doutorado – UFPR.
    Discute estruturas regionais da Bacia do Paraná e menciona o domo/alto de Quatiguá no contexto da evolução estratigráfica.
  • Licht, O. A. B. (tese, UFPR).
    Aborda anomalias geofísicas e estruturas circulares no Norte Pioneiro do Paraná, situando o Alto de Quatiguá no contexto regional.