O quadro de eleitores publicado no Diário Oficial do Paraná em 15 de agosto de 1914 oferece um raro retrato quantitativo da participação política no Norte Pioneiro paranaense durante a Primeira República. Nele aparecem localidades centrais da região — Jacarezinho, Tomazina, Ribeirão Claro e Jaboticabal — permitindo observar diferenças expressivas de peso eleitoral e, consequentemente, de influência política. Jacarezinho se destaca de forma clara. Com 1.440 eleitores no total, o município apresentava um contingente eleitoral mais que o dobro de Tomazina e Ribeirão Claro, e quase cinco vezes superior ao de Jaboticabal.
Esse dado confirma a posição de Jacarezinho como polo regional já consolidado em 1914, concentrando população, atividades comerciais, serviços públicos e, sobretudo, maior atenção do poder político estadual.
Tomazina e Ribeirão Claro aparecem em patamar intermediário, com números muito próximos entre si (684 e 737 eleitores, respectivamente). Essa proximidade sugere realidades demográficas e administrativas semelhantes, típicas de núcleos que exerciam funções locais importantes, mas ainda sem o peso político dos grandes centros regionais.
Jaboticabal (atual Carlópolis), por sua vez, surge com um contingente bem mais modesto: 297 eleitores. Esse número reforça o caráter ainda essencialmente rural e disperso da localidade, cuja organização política formal era limitada quando comparada aos municípios mais estruturados. Ainda assim, sua presença na tabela demonstra que Jaboticabal já estava integrado ao sistema eleitoral estadual, mesmo com reduzida capacidade de influência.
Quando comparados entre si, os números revelam não apenas diferenças populacionais, mas sobretudo desigualdades de poder político efetivo. Em um sistema em que decisões locais e estaduais eram fortemente influenciadas pelo controle do eleitorado, localidades com maior número de eleitores tinham vantagem evidente na negociação de obras, cargos e investimentos públicos.
É bom destacar que o direito ao voto era extremamente restrito. Somente homens maiores de 21 anos, alfabetizados e considerados “cidadãos ativos” podiam votar. Estavam excluídos do processo eleitoral: mulheres, analfabetos, soldados rasos, religiosos sujeitos a voto de obediência, grande parte da população pobre e rural.
O voto era aberto, não secreto, o que facilitava pressões, coerções e fraudes. Nesse contexto floresceu o chamado coronelismo, sistema no qual líderes locais — grandes proprietários de terra ou figuras influentes — controlavam o eleitorado por meio de favores, dependência econômica e intimidação.
As Juntas de Recursos, como a que publicou este quadro, tinham papel central no alistamento, revisão e exclusão de eleitores. Isso tornava o processo eleitoral altamente manipulável, pois a simples exclusão de eleitores podia alterar drasticamente o resultado de uma eleição.
Os números oficiais do eleitorado paranaense em 1914 ajudam a desmontar uma ideia comum projetada a partir do presente: a de que as regiões do estado sempre foram muito desiguais em termos de peso político. Naquele momento, essas diferenças ainda eram relativamente pequenas — inclusive quando comparamos o Norte Pioneiro com áreas que hoje concentram grandes centros urbanos.
Essa comparação é reveladora. Enquanto hoje algumas regiões concentram dezenas ou centenas de milhares de eleitores, em 1914 diferenças de 500 ou 1.000 votantes já eram suficientes para definir hierarquias regionais. O poder político não estava ancorado em grandes massas eleitorais, mas em pequenos contingentes rigidamente controlados.
A pergunta que se faz é: por que esta região cresceu menos do outras que na época tinham praticamente o mesmo eleitorado? Essa pergunta fica como sugestão para estudos futuros para quem o quiser explorar.