quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O peso eleitoral do Norte Pioneiro em 1914

 

Ilustração gerada por IA

O quadro de eleitores publicado no Diário Oficial do Paraná em 15 de agosto de 1914 oferece um raro retrato quantitativo da participação política no Norte Pioneiro paranaense durante a Primeira República. Nele aparecem localidades centrais da região — Jacarezinho, Tomazina, Ribeirão Claro e Jaboticabal — permitindo observar diferenças expressivas de peso eleitoral e, consequentemente, de influência política. Jacarezinho se destaca de forma clara. Com 1.440 eleitores no total, o município apresentava um contingente eleitoral mais que o dobro de Tomazina e Ribeirão Claro, e quase cinco vezes superior ao de Jaboticabal. 

Esse dado confirma a posição de Jacarezinho como polo regional já consolidado em 1914, concentrando população, atividades comerciais, serviços públicos e, sobretudo, maior atenção do poder político estadual.

Tomazina e Ribeirão Claro aparecem em patamar intermediário, com números muito próximos entre si (684 e 737 eleitores, respectivamente). Essa proximidade sugere realidades demográficas e administrativas semelhantes, típicas de núcleos que exerciam funções locais importantes, mas ainda sem o peso político dos grandes centros regionais.

Jaboticabal (atual Carlópolis), por sua vez, surge com um contingente bem mais modesto: 297 eleitores. Esse número reforça o caráter ainda essencialmente rural e disperso da localidade, cuja organização política formal era limitada quando comparada aos municípios mais estruturados. Ainda assim, sua presença na tabela demonstra que Jaboticabal já estava integrado ao sistema eleitoral estadual, mesmo com reduzida capacidade de influência.

Diário oficial APP

Quando comparados entre si, os números revelam não apenas diferenças populacionais, mas sobretudo desigualdades de poder político efetivo. Em um sistema em que decisões locais e estaduais eram fortemente influenciadas pelo controle do eleitorado, localidades com maior número de eleitores tinham vantagem evidente na negociação de obras, cargos e investimentos públicos.

É bom destacar que o direito ao voto era extremamente restrito. Somente homens maiores de 21 anos, alfabetizados e considerados “cidadãos ativos” podiam votar. Estavam excluídos do processo eleitoral: mulheres, analfabetos, soldados rasos, religiosos sujeitos a voto de obediência, grande parte da população pobre e rural.

O voto era aberto, não secreto, o que facilitava pressões, coerções e fraudes. Nesse contexto floresceu o chamado coronelismo, sistema no qual líderes locais — grandes proprietários de terra ou figuras influentes — controlavam o eleitorado por meio de favores, dependência econômica e intimidação.

As Juntas de Recursos, como a que publicou este quadro, tinham papel central no alistamento, revisão e exclusão de eleitores. Isso tornava o processo eleitoral altamente manipulável, pois a simples exclusão de eleitores podia alterar drasticamente o resultado de uma eleição.

Os números oficiais do eleitorado paranaense em 1914 ajudam a desmontar uma ideia comum projetada a partir do presente: a de que as regiões do estado sempre foram muito desiguais em termos de peso político. Naquele momento, essas diferenças ainda eram relativamente pequenas — inclusive quando comparamos o Norte Pioneiro com áreas que hoje concentram grandes centros urbanos.

Essa comparação é reveladora. Enquanto hoje algumas regiões concentram dezenas ou centenas de milhares de eleitores, em 1914 diferenças de 500 ou 1.000 votantes já eram suficientes para definir hierarquias regionais. O poder político não estava ancorado em grandes massas eleitorais, mas em pequenos contingentes rigidamente controlados. 

A pergunta que se faz é: por que esta região cresceu menos do outras que na época tinham praticamente o mesmo eleitorado? Essa pergunta fica como sugestão para estudos futuros para quem o quiser explorar. 






quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

TEM ANO BOM?



Imagem gerada por IA
Se você foi criança em Joaquim Távora/PR nas décadas de 1980 e 1990, certamente se lembra de uma pergunta; “Tem Ano Bom?”. 

No dia 1º de janeiro, logo ao amanhecer, era comum ver grupos de crianças pelas ruas, batendo palmas ou gritando nas portas das casas: “Tem Ano Bom?”.

Ceia de réveillon? Fogos de artifício? Nada disso era prioridade para nós. As crianças queriam mesmo era dormir cedo, porque, no primeiro dia do ano, por volta das seis da manhã, já estavam nas ruas, animadas, percorrendo o bairro inteiro. A recompensa vinha em forma de balas, doces e pirulitos, oferecidos com alegria pelos moradores.

Eu, particularmente, não tinha muito o costume de sair pedindo Ano Bom. Lembro-me de ter participado apenas uma vez, quando me juntei a outras crianças. Voltei para casa com uma sacola cheia de doces. Como nunca fui muito fã de guloseimas, acabei doando quase tudo para meus irmãos, se a memória não me falha.

Recordo-me também de que meus pais mantinham viva essa tradição.  Compravam sacos de balas durante a semana e acordavam logo cedo, no dia 1º de janeiro, para distribuí-las às crianças. Ficavam à porta de casa, esperando os pequenos que passavam, fazendo a pergunta clássica "Tem ano bom?" e a resposta era Tem! Seguida de um sorriso, da entrega de um punhado de doces às crianças e da troca de desejos de Feliz Ano Novo e Deus te abençoe.

Durante muitos anos, essa tradição se manteve viva no município de Joaquim Távora. É uma tradição simples e profundamente humana. Não se sabe ao certo quem a introduziu na comunidade. Ela não veio de decreto, nem de livro, mas nasceu da convivência cotidiana, da repetição espontânea e da boa vontade das pessoas.

Um gesto simples e de baixo valor material, mas carrega um significado profundo: começar o ano partilhando, acolhendo e reconhecendo a alegria das crianças. Sempre foi uma forma silenciosa de ensinar valores como generosidade, respeito e convivência comunitária.

Com o passar do tempo, porém, essa prática foi se tornando menos frequente. Ainda há crianças que saem pedindo Ano Bom, mas já não encontram tantas portas abertas. Muitos deixaram de levantar cedo; outros simplesmente se esqueceram do costume. Vive-se hoje uma rotina mais apressada e, infelizmente, mais individualista, em que pequenos gestos comunitários acabam ficando em segundo plano.

Ainda, hoje, em 1º de janeiro de 2026, passaram mais de vinte crianças pela porta de minha casa pedindo Ano Bom. Confesso que fiquei desapontado comigo mesmo, pois havia me esquecido de comprar doces. Felizmente, minha mão havia comprado algumas balas e pirulitos no dia anterior, que serviram para não deixar a tradição passar em branco.

Refletir sobre essa mudança não é apenas um exercício de nostalgia, mas um convite à consciência. Tradições como essa não existem por acaso: elas criam vínculos, fortalecem a comunidade e fazem da infância um tempo de alegria compartilhada. Resgatar o costume de oferecer doces no Ano-Novo não é apenas olhar para o passado, mas reafirmar um compromisso com a convivência, a generosidade e o bem-estar coletivo.

Talvez seja hora de lembrar que o Ano-Novo pode começar de forma mais simples — e muito mais bonita: com crianças sorrindo pelas ruas, portas abertas e a certeza de que a alegria, quando partilhada, se multiplica.

Além disso, poderia se pensar na preservação dessa prática como parte do patrimônio cultural imaterial do município de Joaquim Távora. 

O “Tem Ano Bom”? não é apenas uma brincadeira infantil, mas uma expressão viva da memória coletiva, dos valores de solidariedade e do espírito comunitário que marcaram gerações. Resgatar, manter viva e fortalecer essa tradição significa reconhecer sua importância histórica e cultural, incentivando sua continuidade entre as novas gerações. Ao valorizá-la como patrimônio imaterial, o município reafirma sua identidade, honra sua história cotidiana e transforma um gesto simples em símbolo duradouro de pertencimento e convivência.

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O HOMEM QUE SE RECUSOU SER PREFEITO DE SANTO ANTÔNIO DA PLATINA


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A história política de Santo Antônio da Platina é marcada por episódios que revelam não apenas disputas de poder, mas também as ambiguidades próprias dos períodos de ruptura institucional. Um desses episódios envolve Joaquim Cardoso da Silveira, personagem recorrente da política local nas primeiras décadas do século XX, cujo nome voltou à cena em meio ao conturbado cenário posterior ao Golpe de 1930.

Eleito prefeito em 21 de setembro de 1928, Joaquim Cardoso da Silveira governou o município até que, com a eclosão do Golpe de 1930 e a instauração do governo provisório no país, perde o mandato e é substituído por prefeitos nomeados pelo novo regime. (Câmara de Santo Antônio)

A partir de então, o Brasil viveu sob um regime em que as câmaras municipais foram dissolvidas, e prefeitos passaram a ser escolhidos por meio de nomeações feitas por interventores ou governos estaduais, sem a participação direta da população. Mesmo sendo identificado com o grupo político anterior ao golpe, Joaquim Cardoso foi nomeado novamente em 11 de novembro de 1935 como prefeito de Santo Antônio da Platina pelo interventor Manoel Ribas — uma nomeação que, por si só, já refletia a suspensão das práticas eleitorais e a concentração de poder nas mãos de instâncias superiores. (Câmara de Santo Antônio)

O que se seguiu foi um gesto político que seria lembrado de formas diversas ao longo do tempo: Joaquim Cardoso da Silveira recusou-se a assumir o mandato, alegando discordância com o caráter discricionário e autoritário do regime vigente, que retirava da população o direito de escolher seus representantes.

Esse episódio foi interpretado de maneiras distintas por diferentes grupos políticos da época. Partidários do novo regime frequentemente o criticaram, enxergando sua postura como resistente a uma nova ordem que buscava consolidar-se de forma centralizada. Por outro lado, outros observadores defendiam que sua recusa expressava uma insatisfação com a perda de processos democráticos, embora reconhecessem que a própria política da época estivesse imersa em tensões e ambiguidade.

Biografia e trajetória política

Joaquim Cardoso da Silveira foi uma figura presente nas articulações políticas de Santo Antônio da Platina nas décadas de 1920 e 1930, período em que o município ainda consolidava suas instituições. Foi prefeito municipal em diferentes momentos, tanto por nomeação quanto por eleição, participando ativamente da vida administrativa local antes e depois do Golpe de 1930. (Câmara de Santo Antônio)

Após seu mandato eletivo ter sido interrompido com o golpe, ele voltou à cena política local e, mais tarde, ampliou sua atuação para o plano estadual, exercendo o cargo de deputado estadual, no qual se envolveu nas demandas e debates relacionados ao desenvolvimento do Norte do Paraná.

No âmbito municipal, Joaquim Cardoso também teve participação na Câmara de Santo Antônio da Platina, onde atuou ao lado de Miguel Dias, a quem faz menção que era um grande líder político do Norte do Paraná. Nessa convivência política, foram comuns as articulações em torno de interesses regionais e as disputas próprias do contexto político da época, marcado por alianças, divergências e rearranjos de poder.

Narrativas, críticas e método histórico

A recusa de Joaquim Cardoso da Silveira em assumir a prefeitura em 1935 não pode ser vista de forma isolada. Ela faz parte de um debate maior sobre o que, afinal, foi o movimento de 1930. Aquilo que muitos chamaram de “Revolução”, para outros, na prática, acabou sendo um governo autoritário, que interrompeu a ordem democrática da época, fechou câmaras municipais e substituiu eleições por nomeações.

Por isso, a atitude de Joaquim Cardoso pode gerar leituras diferentes, dependendo do ponto de vista adotado. Para alguns, sua recusa pode ser entendida como uma forma de não compactuar com a centralização do poder e com a perda da autonomia dos municípios. Para outros, especialmente entre os apoiadores do novo regime, o gesto pode ser visto com desconfiança, como cálculo político ou simples resistência às mudanças impostas naquele momento.

A grande questão — e talvez a mais difícil de responder — é saber se essa interrupção da ordem democrática foi, no fim das contas, melhor ou pior para o Norte Pioneiro do Paraná e para a região. Essa não é uma resposta que se encontra em frases prontas ou versões simplificadas da história. Ela exige pesquisa, comparação de fontes e estudos sérios, feitos com método e cuidado.

Isso porque fatos históricos não se explicam sozinhos. Para entender episódios como esse, é preciso olhar documentos oficiais, jornais da época, atas da Câmara, correspondências e outros registros, sempre levando em conta o contexto, as disputas políticas e os interesses em jogo.

Mais do que um caso curioso do passado, a recusa de Joaquim Cardoso ajuda a mostrar como a política local do Norte do Paraná foi marcada por contradições, conflitos e escolhas difíceis em tempos de mudança. E também lembra que a história é feita de múltiplas versões — e que cabe ao pesquisador, e ao leitor atento, ir além da narrativa mais fácil.

Veja palavras do próprio Silveira: Reportagem o Dia


V

Referências

CÂMARA MUNICIPAL DE SANTO ANTÔNIO DA PLATINA. Relação de ex-prefeitos de Santo Antônio da Platina. Santo Antônio da Platina, PR. Disponível em: https://www.santoantoniodaplatina.pr.leg.br/institucional/utilidade-publica/relacao-de-ex-prefeitos. Acesso em: 26 dez. 2025.

O Dia (Curitiba, PR). Perfil de Miguel Dias. O Dia, Curitiba, 19 mar. 1953. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=092932&Pesq=%22Miguel%20Dias%22&id=37967009202212&pagfis=77640. Acesso em: 29 dez. 2025.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O HOMEM DE RETALHOS

 

O Homem de Retalhos

O início desta história inusitada data por volta de 1922, nos tempos da construção do ramal Paranapanema, entre Quatiguá e Joaquim Távora, época em que muita gente afluiu para a região em busca de emprego e oportunidade.

Meu bisavô e imigrante italiano, Enrico Tressoldi, trabalhava como operário naquela obra, cavoucando terras e nivelando a estrada; literalmente, construindo o traçado da futura ferrovia. E isso ele fazia junto de outros homens vindos de várias localidades, que se habituavam facilmente com o barulho das ferramentas e o canto dos pássaros, tão abundantes naquela época, devido a ainda existência de grandes florestas que mais tarde seriam derrubadas para a extração de madeira e também para a labuta agropecuária.

Certa tarde, três companheiros de trabalho, vendo laranjas maduras em um pomar localizado a cerca de trezentos metros ao norte do atual viaduto, com água na boca e um pouco de fome, resolveram furtar algumas laranjas.

O sol ainda estava alto quando, entre os galhos das laranjeiras, viram, ao longe e se aproximando, algo diferente de tudo o que já tinham visto na vida e se movia rápido atravessando as terras daquela fazenda.

Era um homem de estatura gigantesca, de aproximadamente oito metros de altura,  a pele feita de pano, o corpo desgrenhado como um boneco de trapos ou retalhos. O ser caminhava firme, na direção dos ladrões.

Com a consciência pesada pelo furto, embora insignificante, e com aquele ser, certamente sobrenatural, pensaram que era um acerto de contas pelas laranjas pegas sem permissão.

Então o medo tomou conta deles. Desceram das árvores como puderam, pulando, arranhando-se, escorregando-se e caindo. Antes mesmos que eles tivessem conseguido descer totalmente, o ser, que mais parecia um poste que tinha ganhado corpo, já estava a cerca de dois metros próximo às laranjeiras.

Aí eles se apavoraram e gritaram e correram tanto que o tecido de suas camisas se movimentava freneticamente pela velocidade que corriam. Quando chegaram até o posto de trabalho que tinham abandonado, tentavam contar o fato à Enrico, porém ficaram resmungando sons sem nexo e não soltavam a voz... Até que, vinte minutos depois, quando acalmados por Enrico, contaram ao colega imigrante o que viram.

Enrico não se adentrou muito no mérito da questão, mas ficou meio receoso e pensou ser uma assombração. Os três companheiros, nunca mais trabalharam tranquilos naquele trecho. Inclusive ficavam com medo achar uma moita para fazer suas necessidades e dar de cara com o Homem de Retalho novamente...

Desde esse fato, passaram-se seis anos, a linha férrea já havia sido construída e Enrico se estabeleceu no bairro Jacaré de Cima numa propriedade rural localizada entre os municípios de Siqueira Campos e Quatiguá.

Precisou Enrico buscar algumas coisas na estação de Afonso Camargo, atual Joaquim Távora, além de comprar alguns poucos víveres necessários.

Terminada sua tarefa, na por volta das quatro da tarde, Enrico seguia de volta a seu sítio de Afonso Camargo para Quatiguá. Montado em um cavalo marrom, quando avistou à encruzilhada da estrada que chega até a chácara do Peixinho, sem qualquer aviso prévio, viu o que só poderia ser o mesmo homem de pano, vindo por aquela estrada.

Enrico, instintivamente puxou as rédeas e cutucou com os calcanhares das botas o cavalo para que este seguisse um galope rápido, porém, o animal se recusava a ir rápido, e quanto mais Enrico tentava apressar o animal, mais lento ele ia.

Aquele medo acompanhado de arrepio pelo desconhecido, a aceleração do coração e o desespero pela lentidão do equino se fez presente, mas também, uma coragem tênue lhe dizia que não podia recuar. Colocou os pensamentos em Deus e pensou que o que quer que fosse aquele ser o respeitava e não o afrontava. Se submetia mentalmente à aparição, pois tudo que não queria era uma afronta direta com o que quer que fosse aquilo.

Quando, entre angustias medos e autoafirmações de ordem a si mesmo para não surtar, finalmente, transpôs o eixo da encruzilhada o Homem de Retalhos passou em linha reta próxima a garupa de seu cavalo e continuou a trajetória sem incomodar Enrico ou o animal e sem pronunciar qualquer som.

Enrico nem quis olhar direto para aquele ser, nem olhar para trás, simplesmente conseguiu acelerar o cavalo e foi o mais rápido possível para a sua casa, rezando para que conseguisse chegar em casa antes de anoitecer.

Enrico imediatamente lembrou daquela história dos furtadores de laranja, embora esta aparição tenha acontecido a aproximadamente oitocentos metros da primeira aparição.

Chegando em casa contou tudo a sua esposa Irma e a seus filhos. Enrico nunca se esqueceu desse episódio enquanto viveu e, volta e meia, o relatava para parentes e amigos.

O tempo passou, a história virou lembrança, depois cochicho e, por fim, quase lenda, um causo.

Mas no início dos anos oitenta, aproximadamente em 1982. Umas oito horas noite, João Vargas, conhecido como João Boi, amigo de meu pai, José Balestra Tressoldi, conhecido como Zé Gordo, perguntou a José se tinha uma leitoa para vender, pois estava com vontade de assar uma leitoa para comer.

José disse que tinha a leitoa, mas que não ia vender, ia dá-la, pois queria também saborear com o amigo a carne assada do animal.

Assim decidido, adentraram na picape Willys 67 de meu pai e foram de Joaquim Távora, até a chácara de propriedade de José que atualmente é propriedade de Sílvio Garcia e se localiza atrás da ração pioneira.

Isso era nove horas da noite, ao se aproximar da encruzilhada da estrada da chácara do Peixinho, o farol da camionete iluminou a estrada e ambos viram um homem gigantesco, agora não com os aspecto de feito de retalhos por causa da noite, mas com o aspecto de sombra, os dois nem sequer esboçaram palavras, engoliram seco, se arrepiaram e se entreolharam, ao que José sentou o pé na tábua, estavam ainda a 50 metros da encruzilhada e o homem parecia estar a uns cem metros de distância, quando a camionete cruzou a encruzilhada o homem passou imediatamente atrás da camionete.

Isso provocou um medo estranho nos dois, foram pegar a leitoa, mas rezavam para não cruzar com aquele gigante novamente. Evitaram falar no assunto por alguns dias devido ao impacto da visão, depois que assimilaram teciam comentários sobre o que seria aquilo.

Isso não é um conto ou uma história fantasiada, é um relato curioso que envolveu 6 pessoas ao longo do tempo. O que poderia ser, um ser de outro mundo, uma espécie desconhecida, um aviso de uma força oculta? Ou alguma outra possibilidade?

Não se sabe a resposta, o que se sabe é que tal visagem ocorreu e ocorreu naquela parte do município de Joaquim Távora.

 

domingo, 14 de setembro de 2025

Sebastião de Lima: O vendedor de hinos e o Norte Pioneiro do Paraná


Sebastião de Lima. Acervo o Rádio do Paraná.

Sebastião de Lima (Miraí/MG, 1918 — Curitiba/PR, 1996) foi maestro, militar e compositor — alguém que transitou entre a música popular e a música cívica com naturalidade. Ainda jovem atuou no Rio de Janeiro no meio do rádio e da cantoria popular; entre suas composições de relativo destaque está a parceria “Brasil, Brasil Brasileiro” (em coautoria com Henrique Almeida) — uma canção que o ajudou a ganhar projeção nacional antes de se fixar no Paraná.

Com a transferência para Curitiba pela Aeronáutica, Sebastião encontrou no interior do Paraná um campo aberto: prefeitos e comunidades buscavam hinos que representassem suas histórias e símbolos. Ele transformou isso em seu ofício — compôs letra e melodia para mais de uma, centena de hinos municipais ao longo da vida, isso apenas no Paraná. Em outras palavras, além de artista, tornou-se um vendedor de hinos profissional que oferecia às cidades interioranas a possibilidade de um símbolo musical oficial composto por alguém com o currículo de ter composto um sucesso nacional. Aliás Sebastião já compões hinos para times de futebol, como Coritiba, Pinheiros e Paraná

Do ofício à “venda de hinos”

A expressão pode soar dura, mas descreve um fato prático: Sebastião trabalhava em escala. Viajava, recebia encomendas, adaptava textos e melodias e entregava hinos prontos para serem institucionalizados. Para muitos municípios isso foi conveniente — um compositor experiente entregando uma peça formal e cantável. Para Sebastião, foi também uma forma estável de sustento e presença cultural no estado.

 

O alcance no Paraná e no Norte Pioneiro

No Paraná, a produção de Sebastião de Lima é vasta. Registros e arquivos apontam que mais de uma centena de hinos lhe são atribuídos, embora o número exato varie conforme a fonte. Essa trajetória mostra como sua influência se espalhou por todo o estado, marcando a identidade cívica de inúmeros municípios.

No Norte Pioneiro, composto por 46 municípios, Sebastião de Lima é reconhecido como autor ou coautor de hinos em 14 cidades, representando aproximadamente 30% da região.

Entre os municípios identificados estão: [JOAQUIM TÁVORA], [SANTANA DO ITARARÉ], [JABOTI], [SÃO JOSÉ DA BOA VISTA], [BARRA DO JACARÉ], [CONSELHEIRO MAIRINCK], [CURIÚVA], [CONGONHINHAS], [ITAMBARACÁ], [WENCESLAU BRAZ], [LEÓPOLIS], [SANTO ANTÔNIO DO PARAÍSO], [SÃO SEBASTIÃO DA AMOREIRA], [SÃO JERÔNIMO DA SERRA].

A adoção desses hinos ocorreu principalmente entre as décadas de 1960 e 1980, período em que Sebastião de Lima estava mais ativo na composição de hinos municipais. Apesar do legado expressivo, informações detalhadas sobre a autoria e história de cada hino ainda são escassas, mesmo nos sites oficiais dos municípios. Muitas vezes, é necessário recorrer a gravações, programas culturais e arquivos independentes para resgatar essa memória musical.

A crítica do “autoplagio”

Com tanta produção, veio a crítica. Observadores e jornalistas notaram que muitos hinos assinados por Sebastião repetem versos, imagens e fórmulas: expressões como “terra querida”, “filho teu”, referências ao progresso, à natureza e ao pioneirismo aparecem com frequência e, por vezes, de forma muito semelhante em composições diferentes.

Isso gerou a acusação — mais cultural do que judicial — de autoplagio: não no sentido estrito de crime, mas como questão estética e ética criativa. A pergunta que fica é simples e cidadã: um hino municipal deve ser uma peça única, enraizada na singularidade daquela cidade, ou aceitaremos versões padronizadas que servem ao propósito simbólico de forma rápida e econômica?

Um legado dúbio e valioso

Sebastião de Lima deixou um rastro musical que é ao mesmo tempo generoso e controverso. De um lado, muitas cidades ganharam um hino para cantar em festas, escolas e cerimônias — um ganho concreto para a vida cívica. Do outro, a repetição de fórmulas chama governos locais e comunidades a pensar mais sobre participação, identidade e autenticidade cultural.

 Saiba mais

 Folha de Londrina 2015

As enfermeiras e os hinos de Sebastião Lima

Última Estação

Ouça os hinos dos Municípios do Norte Pioneiro compostos por Sebastião Lima

Joaquim Távora

Santana do Itararé

Jaboti 

São Sebastião da Amoreira 

Wenceslau Braz 

Barra do Jacaré

Santo Antônio do Paraíso

São Jerônimo da Serra 

Leópolis 

Conselheiro Mairink 

Itambaracá 

Curiúva

Congonhinhas

Santana do Itararé

São José da Boa Vista

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Soluções Práticas para a Gestão de Resíduos Sólidos em Pequenos Municípios



Produto Técnico Tecnológico (PTT): Soluções Práticas para a Gestão de Resíduos Sólidos em Pequenos Municípios

A partir da minha dissertação no Mestrado Profiap/UTFPR, intitulada "Gestão de Resíduos Sólidos em Municípios de Pequeno Porte: Identificação das Principais Dificuldades", desenvolvi um Produto Técnico Tecnológico (PTT) voltado à melhoria da gestão de resíduos sólidos em cidades de pequeno porte.

A principal conclusão da dissertação foi que o maior desafio desses municípios não é a falta de recursos financeiros, mas sim a deficiência na gestão pública, refletida em:

  • Ausência de transparência;

  • Falta de dados e controle;

  • Fiscalização ineficiente;

  • Carência de legislação municipal específica.

Principais dificuldades identificadas:

  • Falta de recursos técnicos e infraestrutura;

  • Desarticulação entre esferas federal, estadual e municipal;

  • Dados incompletos no SINIR/SINISA;

  • Sites municipais sem informações claras;

  • Baixa adesão à coleta seletiva;

  • Descumprimento da logística reversa;

  • Baixo índice de reciclagem;

  • Planos de resíduos genéricos e mal estruturados;

  • Ausência de legislação e fiscalização efetiva.

Solução proposta: Política Municipal de Resíduos Sólidos (PMRS)

O PTT propõe criar uma legislação municipal própria, com estrutura clara e objetiva para organizar a gestão dos resíduos sólidos. Como apoio, o produto inclui:

  • Anteprojeto de lei da PMRS (Política Municipal de Resíduos Sólidos);

  • Anteprojeto de decreto regulamentar;

  • Checklists técnicos para elaboração do plano municipal.

Todo esse material está disponível gratuitamente e pode ser adaptado por qualquer município.

Passo a passo das ações sugeridas:

  1. Aprovar a PMRS – Enviar o projeto de lei à Câmara de Vereadores.

  2. Regulamentar a lei – Publicar decreto com regras práticas.

  3. Criar comissão de gestão – Nomear e capacitar os responsáveis.

  4. Elaborar o PMGIRS – Com base em checklist técnico obrigatório.

  5. Aprovar o PMGIRS – Via lei ou decreto, com prazos e metas.

  6. Acompanhar e ajustar – Monitorar ações e reforçar a estrutura conforme necessário.

Acesse o documento original na integra neste link:Produto Técnico Tecnológico

Minha dissertação de Mestrado em Administração Pública


GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS EM MUNICÍPIOS DE PEQUENO PORTE: IDENTIFICAÇÃO DAS PRINCIPAIS DIFICULDADES

Apresentei esta dissertação no programa de Mestrado em Administração Pública pelo Profiap - UTFPR ( Universidade Tecnológica Federal do Paraná), cujo objetivo foi identificar e analisar as principais dificuldades na gestão de resíduos sólidos (GRS) em municípios de pequeno porte da microrregião de Wenceslau Braz, Paraná.

Municípios pesquisados

Foram investigados os seguintes municípios:

  • Wenceslau Braz

  • Carlópolis

  • Guapirama

  • Siqueira Campos

  • Joaquim Távora

  • Quatiguá

  • Salto do Itararé

  • Tomazina

  • Santana do Itararé

  • São José da Boa Vista

Metodologia

A pesquisa analisou dados oficiais das plataformas SINIR (Sistema Nacional de Informações sobre Gestão de Resíduos Sólidos) e SINISA (Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico), os planos municipais de gestão integrada de resíduos sólidos (PMGIRS), informações públicas obtidas via pedidos formais e os sites oficiais dos municípios. O objetivo foi comparar a realidade local com a legislação vigente e a literatura acadêmica sobre GRS em pequenos municípios.

Resultados principais

  • Lacunas nas declarações das plataformas SINIR e SINISA: Todos os municípios apresentaram dados incompletos ou desatualizados, dificultando a análise precisa da situação.

  • Falta de transparência nos sites oficiais: Informações públicas sobre a gestão de resíduos eram insuficientes ou inexistentes, comprometendo o controle social.

  • Planos municipais desalinhados com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS): Muitos PMGIRS estavam desatualizados, pouco claros ou incompletos, sem metas ou ações eficazes.

  • Estrutura razoável para coleta e disposição final: Apesar das falhas administrativas, a maioria dos municípios conta com sistemas básicos para coleta e destinação dos resíduos, incluindo iniciativas consorciadas.

  • Deficiências na gestão:

    • Falta de qualificação técnica dos gestores e operadores.

    • Desconhecimento dos dados reais sobre geração e destinação dos resíduos.

    • Ausência de fiscalização adequada e controle dos serviços.

    • Campanhas de conscientização públicas pouco efetivas e pouco frequentes.

  • Ausência de política municipal robusta: Os municípios carecem de legislação local específica e organizada para a gestão dos resíduos.

  • Falta de apoio técnico e capacitação: Os governos estadual e federal não oferecem suporte suficiente para capacitação e assistência técnica às administrações municipais.

  • Os planos de gestão de resíduos são mais um relatório do que um plano em si mesmo.

Comparação com a literatura acadêmica

  • Os problemas identificados na microrregião são amplamente recorrentes em pequenos municípios brasileiros.

  • Má gestão representa cerca de 73,91% dos problemas locais, e 77,8% na literatura, enquanto dificuldades financeiras são citadas em 26,09% e 22,2%, respectivamente.

  • Contudo, as questões financeiras não foram comprovadas por dados concretos, sugerindo que o principal entrave é a gestão inadequada.

  • A ineficiência administrativa, falta de transparência, ausência de legislação específica e o uso inadequado das plataformas SINIR e SINISA são pontos críticos em ambos os contextos.

Conclusão

A principal dificuldade enfrentada pelos pequenos municípios é a deficiência na gestão da coleta, tratamento e destinação dos resíduos sólidos, e não a falta de recursos financeiros como se costuma alegar. Essa má gestão se manifesta na ausência de transparência, inexistência de políticas municipais estruturadas, desconhecimento e falta de controle sobre os dados, além da escassez de fiscalização e de campanhas educativas.

O estudo recomenda:

  • A adoção obrigatória da Política Nacional de Resíduos Sólidos como norma municipal, para garantir um arcabouço jurídico eficaz.

  • Criação de comissões locais de gestão de resíduos sólidos (CGRS) para implementar e monitorar as ações necessárias.

  • Investimento em capacitação técnica e apoio governamental estadual e federal para os gestores municipais.

  • Melhoria da transparência e do controle social, através do acesso facilitado às informações públicas.

  • Promoção contínua de campanhas de educação ambiental.

Essas medidas são viáveis e não dependem exclusivamente de novos recursos, mas sim do aprimoramento da gestão, do compromisso político e do engajamento da população.


Para consultar a dissertação na íntegra, acesse a  dissertação na íntegra.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Stanislav Petrov, o homem que evitou uma guerra nuclear


Stanislav Petrov. Domínio Público.

“Quando o sistema exigia obediência cega, a consciência de Stanislav Petrov evitou uma catástrofe nuclear sem precedentes”





Na madrugada de 26 de setembro de 1983, durante o auge da Guerra Fria, o planeta esteve a segundos de uma guerra nuclear. Foi pelo ato de uma única pessoa que escapamos. Isso porque um homem decidiu pensar, raciocinar, sentir e agir com grande racionalidade, prevendo as consequências devastadoras de uma guerra nuclear.

Esse homem era Stanislav Petrov, tenente-coronel da Força Aérea Soviética. Ele estava de plantão na base de Serpukhov-15, uma instalação militar altamente secreta ao sul de Moscou, encarregado de monitorar sinais de ataques inimigos. Subitamente, os computadores alertaram: os EUA haviam lançado um míssil balístico. Depois, mais quatro.

O protocolo exigia reação imediata: comunicar ao alto comando e acionar a retaliação nuclear. Mas Petrov começou a raciocinar:

Por que apenas cinco mísseis?
Por que os radares de solo estavam silenciosos?
E se fosse um erro?
E se milhões de vidas estivessem nas suas mãos — dos dois lados da guerra?

Mesmo diante da pressão, do risco pessoal e da máquina militar soviética esperando um clique seu, ele decidiu confiar em algo mais profundo que qualquer sistema: seu discernimento, sua consciência e seu senso de empatia.

Hoje, muitos se perguntam: o que o guiou naquele momento?
Foi apenas uma decisão racional? Ou talvez algo mais?
Alguns dizem que foi a voz do bom senso. Outros, que foi reflexo de um coração piedoso, que soube se colocar no lugar do outro. E há ainda quem veja nisso uma verdadeira inspiração divina — um sussurro do Espírito Santo, agindo através de um homem comum para impedir o desastre total.

O que é certo é que os sistemas falharam — tecnológicos, militares e políticos.
A única coisa que não falhou foi a consciência de alguém que ousou interromper a cadeia de destruição com um simples gesto: não acionar os botões quando o sistema pedia para acioná-los.

Stanislav Petrov, ao invés de condecorado, foi repreendido pelo sistema.

Morreu em 2017, quase sem reconhecimento público. Mas sua atitude permanece como um dos maiores atos de paz silenciosa da história.

No momento atual, por incrível que pareça, estamos com diversos conflitos armados sérios no mundo e o risco da guerra nuclear não está afastado. 

Precisamos urgentemente de mais homens como Stanislav Petrov!



Para quem quiser entender um pouco dos conflitos mundiais sugiro que assista ao documentário Ponto de Virada: A bomba e a guerra fria


📌 Curiosidades históricas

  • 📍 Local do evento: Base de comando Serpukhov-15, região de Kaluga, URSS.

  • 🛰️ Causa do alarme falso: Reflexos solares nas nuvens foram confundidos por satélites como mísseis.

  • 🚫 Consequência evitada: Um contra-ataque soviético automático que, com alta probabilidade, teria iniciado uma guerra nuclear global.

  • 🎬 Filme/documentário: The Man Who Saved the World (2014), com participação do próprio Petrov.

  • 📚 Reconhecimento internacional: Após os anos 1990, Petrov recebeu homenagens da ONU e ONGs de desarmamento nuclear, mas sempre de forma tardia e discreta.



segunda-feira, 2 de junho de 2025

Victorina Miskalo Sagboni: a ilustre artista nascida em Joaquim Távora/PR

VICTORINA SAGBONI JOVEM
FONTE: Blog
 Victorina Sagboni

Poucas figuras representam tão bem a união entre sensibilidade artística, compromisso com a educação e valorização da cultura paranaense quanto Victorina Miskalo Sagboni. Nascida em Joaquim Távora/PR, em 1932, Victorina se destacou como artista plástica, escritora e professora, sendo, sem dúvida, uma das artistas mais festejadas e premiadas que a cidade já revelou.
Formada pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, sua carreira começou no Norte do Estado, onde atuou como diretora da Escola Normal Fernando Amaro, em Arapongas. Em 1964, retornou a Curitiba e passou a colaborar com o artista Guido Viaro no Centro Juvenil de Artes Plásticas (CJAP), instituição que viria a dirigir após a saída do mestre, consolidando seu papel como referência no ensino de artes visuais no Paraná.


Sua obra artística é marcada por múltiplas técnicas e suportes. Trabalhos como Porta Bidimensional (1979) mostram sua busca por novas formas de expressão estética, sempre com grande domínio técnico e profundidade poética.

Obra da autora
Fonte:  Blog Victorina Sagboni



Victorina também se destacou na literatura, publicando livros como Canção de Muitas Despedidas (1984) e Trovinhas Apenas... de Amor e Saudade, além de integrar a antologia Um Século de Poesia: Poetisas do Paraná (1953), organizada por Helena Kolody.

Faleceu em 2009, mas deixou um legado cultural que ecoa até hoje, tanto nas artes visuais quanto na literatura e na formação de novos artistas.

Victorina Sagboni não foi apenas uma grande artista: foi uma educadora visionária, uma poeta delicada e uma figura essencial na história da arte e da cultura do Paraná. Joaquim Távora pode se orgulhar de ter sido o berço de uma personalidade tão marcante.

Escola em Joaquim Távora. 
Fonte: 
Blog Victorina Sagboni

Domingo Um Passeio no Campo (obra da autora)

Esta matéria foi inspirada no blog Victorina Sagboni, ao qual recomendo a leitura.

Abaixo transcrevo uma poesia de Victória

PERCEPÇÃO

Existe no meu um coração sem vida.

Por causa da tristeza imensa, da ferida

que me ficou esperanças malogradas,

com gritos de revolta fui culpando a todos!

Mas percebi depressa o quando de injustiça

havia em meu protesto – Não havia culpas

de nada e de ninguém… nem mesmo culpa minha…

(fonte: Blog Victorina Sagboni)



sábado, 3 de maio de 2025

O INDÍGENA DE 160 ANOS

 

Imagem IA
Um relato impressionante publicado pelo Correio Paulistano em 1903

Em 1903, o jornal Correio Paulistano publicou um relato surpreendente: um indígena, então residente na Fazenda Barra Grande, afirmava ter 160 anos de idade. O mais impressionante? Ele ainda mantinha suas faculdades mentais intactas e caminhava, diariamente, cerca de oito léguas a pé — o equivalente a quase 40 km.

O indígena era considerado um macróbio — termo usado para designar pessoas com longevidade extraordinária. O relato foi enviado ao jornal pelo senhor Manoel Rodrigues do Prado, de Santo Antônio da Platina, que ouviu a história diretamente do protagonista.

Na época, Santo Antônio da Platina ainda era distrito de Jacarezinho, e a Fazenda Barra Grande ficava onde hoje estão localizados os municípios de Guapirama e Joaquim Távora. É provável que o indígena residisse em uma comunidade indígena que, situada entre os rios Barra Grande e o Rio das Cinzas.

É natural que muitos duvidem da veracidade dos 160 anos alegados. Ainda assim, o relato documentado pelo jornal está disponível para quem quiser conferir na íntegra. Se a idade for ou não verdadeira, o que importa é o valor histórico do testemunho — um registro de que, já em 1903, havia presença humana organizada (inclusive indígena) na região que hoje chamamos de Norte Pioneiro do Paraná.

O relato também escancara uma realidade muitas vezes negligenciada: a convivência, forçada ou não, entre indígenas e colonizadores. A posse da terra raramente foi pacífica ao longo da história. Povos sempre tomaram territórios uns dos outros, e essa tensão permanece até hoje, ainda que com outras roupagens.

Muitos afirmam ser "donos" da terra, mas a verdade é que ninguém a possui de fato. Somos apenas ocupantes temporários. A terra permanece; os homens passam. E a história do velho indígena é um lembrete disso.

O indígena relatou que, aos 15 anos, vivia no sertão de Itapetininga (SP). Foi quando conheceu Frei Pacífico, um missionário que catequizava — e também escravizava — índios. Batizado com o nome de Antônio, foi levado à casa do frei, onde viveu como escravo por muitos anos.

Em 1758, com a promulgação do decreto do Marquês de Pombal que libertava os indígenas escravizados, ele partiu para Minas Gerais, convidado por índios já "civilizados". Visitou o Rio de Janeiro e dizia ter presenciado a execução de Tiradentes. Contava, com temor, que presenciou "coisas que tinha medo de relatar".

Cansado da violência em Minas — onde "se enforcava muita gente" — mudou-se para São João do Rio Verde. Por volto de 1889, chegou ao Paraná, onde vivia de forma simples, alimentando-se principalmente de peixes.

Este relato não é apenas curioso — ele é valioso. Mostra que os povos indígenas não eram "coisa do passado" já extinta no século XX. Eles estavam presentes, resistindo, vivendo, contando histórias. A de Antônio (nome de batismo dado por Frei Pacífico) é uma dessas histórias que merecem ser lembradas.

O recorte do jornal Correio Paulistano está disponível para os curiosos e pesquisadores. Vale conferir.

Abaixo: segue o recorte original do jornal:








sábado, 22 de março de 2025

A CASA ONDE NINGUÉM FICA

 

Foto da casa mal assombrada por André Tressoldi (2025)

Entre os anos 70 e 80, um casal ergueu sua casa no bairro Três Galhos, em Joaquim Távora. Era um sítio simples, mas próspero, construído com trabalho árduo e esperança. A casa, sólida e bem feita, representava não apenas um lar, mas um sonho fincado na terra. No entanto, tempos difíceis chegaram. A crise na lavoura e as dívidas com o banco apertaram o cerco, enquanto os fazendeiros mais ricos compravam as terras dos pequenos produtores a preços irrisórios. Alguns vendiam por necessidade, outros por desespero, e havia ainda aqueles que eram empurrados para fora por meios que poucos ousavam comentar.

O casal lutou enquanto pôde, mas acabou cedendo à pressão. Venderam a propriedade, mas a mulher nunca se conformou. Deixar sua casa, entregar seu sonho nas mãos de outro, era um golpe que ela não aceitava. No dia em que partiu, diante do novo dono, lançou um presságio: ninguém jamais moraria ali por muito tempo.

O fazendeiro que comprou o sítio não deu ouvidos. Instalou logo um caseiro na casa, depois outro, e mais outro. Mas nenhum conseguia ficar mais de quinze dias na moradia. Barulhos inexplicáveis, objetos que se moviam, estalos e sombras sorrateiras perturbavam os moradores, e, durante o sono, sonhos inquietos tomavam conta dos residentes. Alguns falavam de uma sensação estranha, um peso invisível nos ombros, como se fossem intrusos. A casa, a primeira vista acolhedora, tornara-se um lugar de passagem, rejeitando qualquer tentativa de permanência.

Sem escolha, o fazendeiro mandou construir novas moradias para seus empregados e deixou a casa vazia. Com o tempo, sua fama se espalhou. Moradores e visitantes relatavam ruídos estranhos à noite, como sussurros no vento ou passos no assoalho. Alguns juravam ter visto tatus entrando sob a casa, mas ao verificarem, nada encontravam. Outros apenas sentiam o silêncio espesso, pesado como um véu.

Um dia, um homem roçava a vegetação nos arredores da casa quando ouviu, bem atrás de si, a buzina de um jipe. Assustado, virou-se de imediato, mas não havia nada ali, apenas o campo vazio e a casa ao fundo. O som repetiu-se uma segunda vez, alto e insistente. Sem hesitar, ele largou as ferramentas e partiu dali, jurando nunca mais passar a noite naquele lugar.

Ainda hoje relata-se que a maldição lançada, num momento de injustiça, pela antiga dona ainda paira sobre aquela casa, um aviso persistente, um sussurro do passado que ecoa nas noites vazias daquela casa e revela o poder de quem clama por justiça do fundo de sua alma




 *Relato de Wilson Rosa de Lima escrito e adaptado por André Tressoldi.

domingo, 26 de janeiro de 2025

A Prisão do Lobisomem - Histórias Tavorenses

 

A Prisão do Lobisomem

Nas décadas de 1960 e 1970 histórias de lobisomens ganhavam vida em sussurros ao redor das mesas nas cidades do interior. Era um tempo em que o silêncio das estradas e a escuridão das matas alimentavam o imaginário popular. Muitos juravam ter visto sombras que se moviam rápidas como o vento ou ouvido uivos que rasgavam a quietude. E essas narrativas ganhavam ainda mais força sob a luz prateada da lua cheia.

Maio era um mês de noites claras e brisa suave, mas aquela noite, uma sexta-feira parecia carregada de algo mais. O céu estava limpo, e a lua cheia reinava, projetando seu brilho espectral sobre o bairro rural de Varsóvia, município de Joaquim Távora/PR. Era quaresma, e a fé das pessoas se misturava com superstições e crendices antigas. Naquela noite, a casa de um agricultor devoto da Virgem Santa fora o ponto de encontro para a reza do terço, um costume praticado, à época, pelas famílias do campo.

Após as orações, os convidados se reuniram para compartilhar pipoca, amendoins torrados, bolos caseiros e a irresistível batida de coco, apelidada de "coquinho". Risadas ecoavam, misturando-se ao aroma de cachaça e ao murmúrio das conversas. Quando o relógio marcou 21h30, quatro homens, um pouco mais leves de espírito — e pesados de bebida —, montaram em seus cavalos e tomaram o caminho de casa.

A estrada, iluminada apenas pela lua e pelo brilho ocasional de vagalumes, serpenteava pela escuridão e se ouvia o farfalhar suave das folhas abanadas por um brisa que ameaçava se tornar vento. Quando passaram ao lado do Clube de Campo Caça e Pesca, o silêncio foi interrompido por um movimento estranho à frente. Um vulto emergiu da escuridão, avançando devagar, mas com uma presença que congelou o ar ao redor.

— Que Deus nos proteja… — murmurou um deles, enquanto outro, com a coragem inflamada pelo álcool, sussurrou:

— Olha lá... é um lobisomem!

A criatura se movia com passos desajeitados, como se cada movimento exigisse um esforço sobrenatural. Pelos negros e densos reluziam sob a luz da lua, e olhos vermelhos, brilhantes como carvões incandescentes, fitavam os homens. Eles hesitaram por um instante, mas observaram que a criatura parecia estar passando mal ou engasgada com um tucho de penas vermelhas de galinha de galinha na boca.

Observando a ligeira desvantagem da criatura, a curiosidade e a antecipação da glória tomaram conta deles.

— Vamos pegá-lo! — bradou um deles.

Sem pensar, desmontaram os cavalos de laços na mão e avançaram. A criatura tentou fugir, seus passos ecoando sobre a ponte do Riozinho, mas o líder o grandalhão do grupo, com a destreza de quem laçava o gado desde jovem, lançou a besta por um lado. Outro homem jogou o seu laço e ficaram segurando a fera em posição oposta. Os outros dois a encurralaram a criatura na ponte de madeira sob a qual escorre o riacho apelidado de Búfalo e reforçaram a amarração. Em meio a grunhidos e urros assustadores, o lobisomem foi finalmente subjugado. Os homens não se continham em si pela alegria de ter feito aquela façanha antecipando os elogios e as histórias que contariam sobre o ocorrido.

De perto, a visão era ainda mais aterrorizante. As orelhas da criatura pareciam as de um elefante, mas menores e grotescamente distorcidas. Seus dentes, enormes e afiados, projetavam-se como punhais e eram três vezes maiores do que os dentes de um cachorro. Os pelos grossos e negros lembravam os de um javali, enquanto as pernas arqueadas e apoiadas nas pontas dos pés traziam à mente a figura de um canguru deformado. Quando se movia, o corpo curvava-se de forma grotesca, como se a criatura fosse feita para o terror e não para este mundo. Os braços eram curtos, de forma que se o bicho ficasse de quatro sua lombar ficava inclinada como um escorregador.

Orgulhosos e excitados, os homens decidiram levar o capturado à polícia. A patrulha da cidade consistia apenas em um Fusca antigo, e Joaquim Távora não tinha cadeia própria. Assim, seguiram em direção a Carlópolis, a cidade vizinha. No caminho, o lobisomem rugia e se contorcia, mas os homens mantinham a vigilância, o haviam amordaçado. Não havia dúvidas de que estavam convencidos de que haviam realizado um feito heroico.

No entanto, ao amanhecer, o mistério tomou um rumo inesperado. Na delegacia, já não havia sinal da besta. Em seu lugar, encontraram totalmente nu e com uns arranhões pelo corpo, um homem muito conhecido na região — um fazendeiro de renome, com terras vastas e influência política. Seu semblante era abatido e com olheiras visíveis, mas havia algo nos olhos que sugeria uma verdade oculta.

O delegado calça curta de Carlópolis, reportou a situação as autoridades de Curitiba. Porém como ninguém tomou o cuidado de tirar uma foto do monstro, ninguém acreditou, trataram o caso como uma insensatez e ameaçaram demitir o delegado. O fazendeiro foi libertado sem qualquer acusação, e o delegado de Carlópolis recebeu ordens para silenciar o ocorrido. Os homens que haviam capturado o lobisomem foram persuadidos a manter segredo com promessas de dinheiro e favores.

Ainda assim, os rumores vazaram, como sombras que nem a luz do dia consegue dissipar. Os moradores de Varsóvia cochichavam sobre a noite em que o lobisomem foi capturado, mas poucos ousavam falar abertamente. O fazendeiro continuou sua vida como se nada tivesse acontecido, mas, nas noites de lua cheia, quem passava pela estrada do clube Caça e Pesca jurava ouvir grunhidos e sentir a presença de algo que não pertencia a este mundo.

E assim, a lenda do lobisomem de Joaquim Távora permaneceu por anos ofuscada pela dúvida, mas quem conta esse relato garante que é verdade e afirma que ainda hoje um dos quatro que prenderam a fera vive no Estado de Rondônia.

 

Adendo: Escrito e adaptado por André Tressoldi, baseado no relato do Sr. Moacir, que residia no bairro Varsóvia na época do fato.