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No dia 1º de janeiro, logo ao amanhecer, era comum ver grupos de crianças pelas ruas, batendo palmas ou gritando nas portas das casas: “Tem Ano Bom?”.
Ceia de réveillon? Fogos de artifício? Nada disso era prioridade para nós. As crianças queriam mesmo era dormir cedo, porque, no primeiro dia do ano, por volta das seis da manhã, já estavam nas ruas, animadas, percorrendo o bairro inteiro. A recompensa vinha em forma de balas, doces e pirulitos, oferecidos com alegria pelos moradores.
Eu, particularmente, não tinha muito o costume de sair pedindo Ano Bom. Lembro-me de ter participado apenas uma vez, quando me juntei a outras crianças. Voltei para casa com uma sacola cheia de doces. Como nunca fui muito fã de guloseimas, acabei doando quase tudo para meus irmãos, se a memória não me falha.
Recordo-me também de que meus pais mantinham viva essa tradição. Compravam sacos de balas durante a semana e acordavam logo cedo, no dia 1º de janeiro, para distribuí-las às crianças. Ficavam à porta de casa, esperando os pequenos que passavam, fazendo a pergunta clássica "Tem ano bom?" e a resposta era Tem! Seguida de um sorriso, da entrega de um punhado de doces às crianças e da troca de desejos de Feliz Ano Novo e Deus te abençoe.
Durante muitos anos, essa tradição se manteve viva no município de Joaquim Távora. É uma tradição simples e profundamente humana. Não se sabe ao certo quem a introduziu na comunidade. Ela não veio de decreto, nem de livro, mas nasceu da convivência cotidiana, da repetição espontânea e da boa vontade das pessoas.
Um gesto simples e de baixo valor material, mas carrega um significado profundo: começar o ano partilhando, acolhendo e reconhecendo a alegria das crianças. Sempre foi uma forma silenciosa de ensinar valores como generosidade, respeito e convivência comunitária.
Com o passar do tempo, porém, essa prática foi se tornando menos frequente. Ainda há crianças que saem pedindo Ano Bom, mas já não encontram tantas portas abertas. Muitos deixaram de levantar cedo; outros simplesmente se esqueceram do costume. Vive-se hoje uma rotina mais apressada e, infelizmente, mais individualista, em que pequenos gestos comunitários acabam ficando em segundo plano.
Ainda, hoje, em 1º de janeiro de 2026, passaram mais de vinte crianças pela porta de minha casa pedindo Ano Bom. Confesso que fiquei desapontado comigo mesmo, pois havia me esquecido de comprar doces. Felizmente, minha mão havia comprado algumas balas e pirulitos no dia anterior, que serviram para não deixar a tradição passar em branco.
Refletir sobre essa mudança não é apenas um exercício de nostalgia, mas um convite à consciência. Tradições como essa não existem por acaso: elas criam vínculos, fortalecem a comunidade e fazem da infância um tempo de alegria compartilhada. Resgatar o costume de oferecer doces no Ano-Novo não é apenas olhar para o passado, mas reafirmar um compromisso com a convivência, a generosidade e o bem-estar coletivo.
Talvez seja hora de lembrar que o Ano-Novo pode começar de forma mais simples — e muito mais bonita: com crianças sorrindo pelas ruas, portas abertas e a certeza de que a alegria, quando partilhada, se multiplica.
Além disso, poderia se pensar na preservação dessa prática como parte do patrimônio cultural imaterial do município de Joaquim Távora.
O “Tem Ano Bom”? não é apenas uma brincadeira infantil, mas uma expressão viva da memória coletiva, dos valores de solidariedade e do espírito comunitário que marcaram gerações. Resgatar, manter viva e fortalecer essa tradição significa reconhecer sua importância histórica e cultural, incentivando sua continuidade entre as novas gerações. Ao valorizá-la como patrimônio imaterial, o município reafirma sua identidade, honra sua história cotidiana e transforma um gesto simples em símbolo duradouro de pertencimento e convivência.
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